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Jecé Tico, o médium que não acredita em espíritos
Jecé sempre foi um cidadão comum, com uma pequena exceção: ele duvidava de coisas que a maioria das pessoas acreditava. Sua paixão era o método científico, era fã de Carl Sagan, desdenhava de homeopatia, Feng Shui, quiromancia, horóscopo. Paulo Coelho era charlatão e picareta, segundo sua própria definição. Já acabou diversos namoros só porque descobria que suas namoradas acreditavam em duendes ou anjos. OVNS e abduções alienígenas eram piadas de mau gosto. Enfim, um cético. Aliás, seu nome é Jecé Tico.
Um belo dia, Jecé Tico estava viajando de ônibus. Ao seu lado, uma bela mulher. Ele puxa conversa. Ele diz ser advogada e trabalha como estagiária no fórum da capital. Enquanto conversavam, na TV do ônibus passava um filme. Era “Jurassic Park”.
- Já assisti esta porcaria umas dez vezes.
- Pois é.
Jecé já estava mau intencionado e estava prestes a dar o bote definitivo. Porém, ela puxa assunto sobre os dinossauros.
- Os dinossauros...engraçado eles terem morrido...
- Existem algumas teorias sobre o seu desaparecimento...
- Pois é. Já eu acho que eles morreram porque eram muito grandes para a Arca de Noé.
Jecé quase tem um ataque, mas se controla para não ser grosseiro. Apesar de ainda querer muito passar umas horas agradáveis com a jovem, a idéia de se lembrar desta “pérola” na hora H e broxar não sai de sua cabeça. De repente um barulho grande. E tudo fica escuro.
- O que houve?
- Você está me escutando? Quantos dedos tenho aqui?
- O bastante. Onde diabos estou? Por que estou deitado? É um hospital?
- Ocorreu um acidente grave no ônibus que você viajava. Você foi internado às pressas. A algumas horas você foi dado como morto, mas depois retomou os sinais vitais. É um milagre!
- Que mané milagre. Acho que seu eletrocardiograma é que deve estar com defeito. Por acaso pareço com alguém que quase morreu?
- Com é que é?
- Como é que é o que?
- Morrer. Você viu uma luz, um túnel...
- Pra falar a verdade, sim. Era o caminhão que vinha na contramão e trombou na porra do ônibus que eu vinha.
Parece que Jecé não deu muita importância a esta experiência próxima a morte. Dias depois, ainda em observação no hospital, ele está lendo um livro do Carl Sagan e escuta alguém chamá-lo.
- Ei, você pode me escutar ?
Jecé para a leitura e olha em volta. Não vê ninguém. Dá de ombros. Pouco depois, escuta de novo.
- É verdade. Você pode me ouvir.
Assustado, Jecé fecha o livro e olha em volta. Ninguém por perto.
- Agora lascou. Quem é o gaiato que tá tirando uma comigo?
- Ei, você não pode me ver, mas pode me escutar. Está me ouvindo?
- Quem diabos está falando?
- Meu nome é Rodrigues, e eu morri naquele acidente de ônibus.
- Ah, deve ser brincadeira, mesmo. Tou achando muito engraçado. Muito bem, pessoal, adorei, mas apareçam.
Entra uma enfermeira
- Deseja algo, senhor?
- Que acabem com esta brincadeira. Tem um gaiato fazendo alguma brincadeira.
- Não é brincadeira. Estou morto, mesmo.
- Você ouviu?
- Não ouvi nada não, senhor – responde a enfermeira, sem entender absolutamente nada.
- Ah, é brincadeira.
- Você precisa acreditar...
- Que ótimo. Tá bom. Já vi que é brincadeira. Pode sair de onde estiver.
A enfermeira sai lentamente.
- Vou chamar o médico. Acho que o senhor não está bem.
- Estou muito bem. É só parar com esta brincadeira.
- Não é brincadeira, já disse. Preciso de sua ajuda.
- Agora pronto. Quer acabar com isso!?
A enfermeira sai sorrateiramente do quarto, crente que o paciente está meio pancada.
- Enfermeira, aonde vai?
- Ele deve ter se assustado. Ele não pode me escutar.
- Quem vai escutar agora é você. Pode acabar com esta brincadeira, pois quando eu sair daqui você vai se preocupar em morrer de verdade.
- Já estou morto. Quer prova?
- Ah, tá. Vai me provar como? Vai fazer um retrato falado de Deus?
- Levante e siga minhas orientações.
Jecé se levanta e segue pelos corredores do hospital. Sempre olhando em volta, procurando a origem da voz, ele segue as orientações da mesma. Ele acaba entrando no necrotério do hospital.
- Muito bem, onde é a festa surpresa?
- Levante este pano.
Jecé obedece a voz e levanta o pano, vendo o cadáver rígido de um homem.
- Maravilha. Um presunto. E daí?
- Sou eu.
- Ah, que bela prova.
- Ainda acha que é brincadeira?
- Para falar a verdade, não. Acho que a pancada afetou minha cabeça e estou ficando doido. Preciso procurar o médico e dizer isso a ele.
- Você não está doido. Você quase morreu, mas não morreu. Mas, de alguma forma, esta experiência lhe deu a capacidade de escutar os mortos.
- Isso não existe. Canalização de gente morta é fraude. Nunca ninguém deu uma prova convincente disso. Ainda acho mais fácil eu estar doido. Já ouviu falar em Guilherme de Ockham?
- Que é que tem eu? –pergunta uma terceira voz.
- Quem é, agora?
- Acho que é teu conhecido, o tal Guilherme. Era parente seu?
- Ai meu saco. Ele era um filósofo católico da idade média, e ele cunhou uma expressão conhecida como “navalha de Ockham”, que diz que se duas explicações elucidam um fenômeno, deve se escolher a mais simples.
- Sim, e daí?
- Daí que temos duas explicações para o fato de estar escutado vozes: ou realmente adquiri a capacidade de escutar gente morta, que consiste em formas conscientes sem substância ou volume. Ou então o acidente perturbou a química do meu cérebro e estou tendo alucinações.
- Bem, a opção dos mortos me parece bem mais simples.
- Como é? Endoidou? Acha mais simples acreditar em vida após morte do que considerar todas as hipóteses neurológicas, como a administração de alguma droga, uma concussão, ou alguma vibração mecânica de baixa freqüência que afeta meu cérebro...
- Como eu disse, é a mais simples. Quer saber a opinião de seu colega Guilherme?
- Não, muito obrigado. Já basta uma voz em minha cabeça. Isso também pode ser um conflito interno, minha personalidade dividida entre que sou hoje e a minha criação católica...
- Meu, tu é complicado. Estou morto e você pode me ouvir. Quer mais simples que isso?
- Não é possível.
- Como não, você não está me ouvindo? Bem, vejo que você é uma pessoa não muito bem resolvida consigo mesmo.
- Ah, não. Além de tudo, um defunto que lê livros de auto-ajuda. Isso é demais.
- Ora, nunca leu Lair Ribeiro ou Paulo Coelho?
- Sou homem, porra. Ah, estou dando cabimento a voz em minha cabeça. Tenho que ignorar ele.
- Ignora isso: eu tava vendo tu ficar de pau duro quando a enfermeira estava lavando você.
- Bem, ele pode ter comentado isso com alguém.
- Só que ele não viu você se masturbando. Mas eu estava lá. Tu ainda toca punheta, cara? Fala sério...
- E daí que eu toco...digo, me masturbo?
- Oba. Toca uma em mim, então. Rêêêê!!
- Preciso de ajuda profissional. Urgente.
- O que? Vai procurar uma puta?
- Não é deste tipo de ajuda que estou falando...
Deitado em um divã, Jecé conversa com um senhor bem vestido.
- Quer dizer que o senhor está ouvindo vozes desde que sobreviveu ao acidente?
- Sim, doutor. Ele afirma ser um dos passageiros mortos.
- Isso provavelmente é um sentimento de culpa sublimado.
- Culpa pelo que?
- Por ter sobrevivido ao acidente, enquanto outros morreram.
- Ah, não acredito que você ainda acha que está louco – Jecé escuta a voz novamente.
- O senhor escutou, doutor?
- Está ouvindo as vozes, agora? Acho que seu caso é clínico. Devo prescrever algumas drogas...
- Que médico fajuto tu arrumou, hein?
- Quer calar a boca?
- O que disse?- pergunta o psiquiatra.
- Não é com o senhor, não.
- Ah, sim. As vozes. O que eles estão dizendo, agora?
Jecé espera alguns segundos. Depois fala.
- Ele tá chamando o senhor de charlatão.
- Uma óbvia reação de negação à verdade.
- Ele também está falando que você está pouco se fodendo para com seus pacientes, se limitando a encher o rabo deles de drogas. Também tá dizendo que você está enganando sua sócia e esposa. E que você é gay, e que está saindo com o paciente que vem aqui toda terça-feira à tarde.
Jecé é expulso, sendo empurrado para fora do escritório.
- O que houve com a minha hora?
- Não precisa pagar! Vá embora, não posso ajudá-lo!
- E minhas vozes?
- Vá você e suas vozes para a puta que pariu!
E bate a porta.
- Bem, que ele é gay, ele é. E Não assumido. Ele precisa se assumir, sair do armário...
- Então vá falar isso para ele. Eu, particularmente, não quero mais conversa.
- Você não pode me ignorar. Vou começar a cantar todo dia, toda hora. Vou começar. “Quer dançar, quer dançar, o tigrão vai ensinar...”
- Fudeu agora. Quer calar-se?
- Só se você me escutar.
- Tá, fala que eu te escuto!
Passa uma mulher neste momento, que olha desconfiada para Jecé.
- É só um novo tipo de terapia, minha senhora...
A mulher se afasta, olhando assustada para Jecé.
- Eu preciso de tua ajuda. Depois tu resolve se acredita ou não, tá certo?
- Se eu ajudar, você some?
- Com certeza.
- Bem, o que você quer?
Jecé sai do consultório e, guiado pele voz em sua cabeça, ele chega a um apartamento.
- Pronto, chegamos. O que devo fazer, agora?
- Toca a campanhia. Você deve falar com Miguel.
- Quem é ele?
- Meu... namorado.
- Ah, pronto. Tu era bicha? Além de tudo, mais essa. Tu tá me vendo pelado, por acaso? Bem, realmente é um defunto fresco...
- Ah, um comediante homofóbico. Isso, faz piada de minha desgraça.
- Bem, perco a canalização mas não perco a piada. Além do mais, você que começou com aquele história da enfermeira.
- Toque a campanhia. Quando ele atender, eu lhe dou instruções.
Após tocar a campanhia, atende a porta um homem jovem de cabelos escuros e curtos, com os olhos vermelhos. Parece que ele andou chorando.
- Boa tarde. Meu nome é Jecé. Você é Miguel?
- Sim, é ele. Fale com ele. Diz que tem um recado meu para ele.
- Tá, ta.
- O que disse, senhor? - pergunta Miguel.
- Nada, meu jovem. Preciso conversar contigo. E a respeito de Rodrigues, seu namorado...
- Por favor, entre...-ele não termina a frase, desatando a chorar.
Jecé entra e se senta. Miguel se recompõe.
- O que o senhor deseja?
- Bem, você pode achar até estranho ou achar que estou agindo de má fé, e nem acreditar em mim. De fato, nem eu estou acreditado muito...
- Não tapeia. Vai direto ao ponto – interfere a voz.
- Tá bom, tá bom. É o seguinte; eu estava no mesmo ônibus que seu namorado estava e que se acidentou.
- Você o conhecia?
- Pra falar a verdade, não...
- Vai direto ao ponto! - grita Rodrigues.
- Tá certo! É o seguinte: eu quase morri e agora eu escuto gente morta. Pronto, falei!
- Isso por acaso é alguma brincadeira?
- Ah, não acredita? Que bom, nem eu. Bem, com licença...
- Ei, aonde você vai? Ainda não falei o que você deve falar a ele.
- Ele não acredita, pronto. Isso prova que tem mais juízo do que eu. Vou embora, ora pois.
- Com quem você está falando? – questiona Miguel.
- Bem, com a voz que afirma ser o seu namorado.
- Olha, se isso é uma brincadeira, é de muito mau gosto. Vou chamar a polícia.
- Ah, agora lascou. Sabia que não daria certo.
- Você disse que me ajudaria. Não pode ir embora.
- Ele vai chamar a polícia. Creio que pra um morto não seja muito problema, mas acredite, pode ser muito inconveniente.
- Fala pra ele que eu ainda o amo! Ele vai acreditar!
- Ele falou que ainda o ama...ah, muito original. Dá pra dizer algo mais específico?
- Sai da minha casa.
- Estou tentando, mas ele não quer que eu saia.
- Diz pra ele que estou falando a respeito daquele noite que passamos sozinhos acampando enquanto seus pais pensavam que ele estava estudando. Só nós sabemos.
- Bem, ele mandou eu falar sobre aquele noite que passaram sozinhos acampando enquanto seus pais pensavam que você estava estudando.
- C-como você sabe?
- Só estou repetindo o que ele está me falando.
Ele senta-se e fica atônito.
- Só nós dois sabíamos sobre isso. Era segredo nosso. É verdade, então.
- Olha, meu querido. Tem outras explicações para isso. Ele pode ter comentado com alguém, e como você ainda está abalado emocionalmente, você estaria suscetível a crer em algo assim...
- Que porra tu tá fazendo? Agora que ele está acreditando, tu vem com este papo?
- Não posso evitar. Ainda não estou acreditando.
- Estou confuso. Você o escuta ou não?
- Eu estou escutando vozes, mas daí se são de gente morta ou é uma alucinação...
- Mas como você saberia deste segredo...
- Deve ter alguma explicação razoável.
- Ah, vá se foder. Em todos os médiuns em todas as cidades do mundo, tinha que parar logo em um que não acredita!
- Tá, tá. O que devo dizer, agora?
Miguel espera. Jecé fala.
- Ele tá falando que lhe ama muito, mas que precisa seguir em frente. E você deve fazer o mesmo. Ele te deseja muita sorte, que você arranje alguém, etc...bicho, que conversazinha pouco original. Acho que você assistiu muito “Alem da Eternidade”.
- Ah, meu saco. Apenas repete o que estou falando!
- Estou parecendo um destes vigaristas que quer arrancar dinheiro de viúvas incautas. Fala algo mais útil, como por exemplo a senha de alguma conta sua.
- Devo ter tomado caipirinha com o cálice sagrado em outra vida. Eu mereço. Vai, continua...
Jecé continua repetindo as frases de Rodrigues a Miguel. Por sua vez, Miguel conversa com Jecé como se estivesse convesando com seu namorado morto.
- Meu Deus, é incrível. Você escuta mesmo os mortos.
- Você se convence fácil.
- Não fode, Jecé – interrompe Rodrigues- Ainda não se convenceu que isso é verdade?
- Vai ser difícil.
- É sério? Você não acredita? Nem com as evidências? Você falou coisas que só eu e Rodrigues sabíamos. Qual é minha cantora favorita?
- Diz que é Bic Runga, uma cantora australiana.
- Quem é essa?
- Apenas diz, diacho!
- Ele falou Bic Runga.
- Olha aí. Ele não é muito conhecida por aqui.
Miguel se levanta e coloca um CD no toca-discos. Começa a tocar uma música cantada por uma voz suave e agradável.
- É isso?- pergunta Jecé.
- Mas tu é chato. Isso é lindo.
- Podia ser pior. Ainda bem que não é Celine Dion.
Miguel volta e se senta ao lado de Jecé.
- Adorávamos esta música. Seu nome é “Beautiful Collision”.
- Que bom. E aí, Rodrigues, vai passar mais um psicograma ou por hoje chega?
- Bem, eu queria pedir só mais uma coisa...
- Vai, o que é...?
- Já que você pode me escutar, talvez eu consiga me incorporar em seu corpo.
- Ah, ótimo. E daí?
- Se conseguir, gostaria de pedir mais uma coisinha...
Já na rua, Jecé começa a falar com visível irritação. Os transeuntes o observam, curiosos.
- Não acredito que você teve coragem de me pedir isso! Tu acha que eu tenho cara de quem costuma colar os bigodes com outro macho da espécie?
- Imaginei que era o mínimo que podia fazer por mim. Além do mais, o Whoopi Goldberg fez isso para o Patrick Swayze naquele filme, se agarrando com a Demi Moore...
- Miguel não é exatamente Demi Moore. Será que é isso? Eu sou um homossexual não assumido e esta voz seria o conflito interior de meu ego com meu superego?
- Ah, desisto. Vou pegar descendo. Digo, subindo. Descer nestas circunstâncias pode não ser muito bom.
- Que beleza. Só me faz um favor...não espalhe por aí que eu escuto gente morta o tempo todo. Até porque deve ter uma explicação razoável para isso tudo.
- Tá, tá. De qualquer modo, valeu.
- Tá. Putz, se isso fosse verdade, bem que poderia aparecer alguém mais interessante para trocar umas idéias...bem, preciso achar é uma explicação razoável para este fenômeno, antes que a Editora Planeta me descubra. Só falta eu chegar em casa e encontrar marcas misteriosas no meu jardim e começar a entortar talheres quando for comer...