O Busilis Blog

Este é o blog do Site www.obusilis.com. O Dia-a-Dia do Brasil e do Mundo no nosso diário de uma forma que ninguém ousa publicar. O mundo do ponto de vista Busilis.

quinta-feira, novembro 13, 2003

 
Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar
recortando e possa estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém
que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível
da comunicação moderna, o gerundismo.

Você pode também estar passando por fax, estar mandando pelo correio
ou estar enviando pela Internet. O importante é estar garantindo que a
pessoa em questão vá estar recebendo esta mensagem, de modo que ela
possa estar lendo e, quem sabe, consiga até mesmo estar se dando conta
da maneira como tudo o que ela costuma estar falando deve estar soando
nos ouvidos de quem precisa estar escutando.

Sinta-se livre para estar fazendo tantas cópias quantas você vá estar
achando necessárias, de modo a estar atingindo o maior número de
pessoas infectadas por esta epidemia de transmissão oral.

Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste
movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha nas pessoas
que costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo.

Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos
interlocutores que, sim!, pode estar existindo uma maneira de estar
aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito.

Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a
estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a
estar ouvindo frases assim o dia inteirinho.

Sinceramente: nossa paciência está estando a ponto de estar
estourando. O próximo "Eu vou estar transferindo a sua ligação" que eu
vá estar ouvindo pode estar provocando alguma reação violenta da minha
parte. Eu não vou estar me responsabilizando pelos meus atos.

As pessoas precisam eAs pessoas precisam estar entendendo a maneira
como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do
dia-a-dia.

Tudo começou a estar acontecendo quando alguém precisou estar
traduzindo manuais de atendimento por telemarketing. Daí a estar
pensando que "We'll be sending it tomorrow" possa estar tendo o mesmo
significado que "Nós vamos estar mandando isso amanhã" acabou por
estar sendo só um passo.

Pouco a pouco a coisa deixou de estar acontecendo apenas no âmbito dos
atendentes de telemarketing para estar ganhando os escritórios. Todo
mundo passou a estar marcando reuniões, a estar considerando pedidos e
a estar retornando ligações.

A gravidade da situação só começou a estar se evidenciando quando o
diálogo mais coloquial demonstrou estar sendo invadido inapelavelmente
pelo gerundismo.

A primeira pessoa que inventou de estar falando "Eu vou tá pensando no
seu caso" sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa
infelicidade lingüística estar se instalando nas ruas e estar entrando
em nossas vidas.

Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como
"O que cê vai tá fazendo domingo?", ou "Quando que cê vai tá viajando
pra praia?", ou "Me espera, que eu vou tá te ligando assim que eu
chegar em casa".

Deus. O que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam
entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas
gerações?

A nível de linguagem, enquanto pessoa, o que você acha de tá
insistindo em tá falando desse jeito?

Em tempo: O gerundismo é um erro crasso. Quem pensa que está
utilizando-se de uma forma erudita ao "estar falando" dessa forma,
saiba que, na verdade, está mesmo é cometendo um crime de lesa
idioma... E não me venha dizer que isso é evolução!

Nada que pode empobrecer pode ser considerado evolução. E o gerundismo
empobrece nossa língua, nossos ouvidos e nosso cérebro. Por favor, não
seja você mais um(a) a cometer esse crime.

Acho que é passada a hora de podermos estar pensando em querermos
estar acabando com essa aberração anatômica da nossa língua...

Hoje já se sabe que o citado manifesto é de autoria de Ricardo Freire
e foi publicado no Jornal da Tarde em 2001-02-16.


 
ESSE CARA É F...

Meu nome é Afonso Soares de Melo, e resolvi contar algo que se passou
comigo: Estava sentado no meu escritório quando lembrei de uma chamada
telefônica que tinha que fazer. Encontrei o número e disquei. Atendeu-me
um cara mal humorado dizendo:
- Fale!!! - Bom dia. Poderia falar com Andréa? O cara do outro lado
resmungou algo que não entendi e desligou na minha cara. Não podia
acreditar que existia alguém tão grosso. Depois disso, procurei na minha
agenda o número correto da Andréa e liguei. O problema era que eu tinha
invertido os dois últimos dígitos do seu número.Depois de falar com a
Andréa, observei o número errado ainda anotado sobre a minha mesa.
Decidi ligar de novo. Quando a mesma pessoa atendeu, falei:
- Você é um filho da puta!!!
Desliguei imediatamente e anotei ao lado do número a expressão
"filho da puta" e deixei o papel sobre a minha agenda. Assim, quando
estava nervoso com alguém, ou em um mau momento do dia, ligava prá ele,
e quando atendia, lhe dizia "Você é um filho da puta" e desligava sem
esperar resposta. Isto me fazia sentir realmente muito melhor.
Ocorreu que a Telepar introduziu o novo serviço "bina" de identificação
de chamadas, que me deixou preocupado e triste porque teria que deixar
de ligar para o "filho da puta". Então, tive uma idéia: disquei o seu
número de telefone, ouvi a sua voz dizendo "alô" e mudei de identidade:

- Boa tarde, estou ligando da área de vendas da Telepar, para saberse o
senhor conhece o nosso serviço de identificador de chamadas "bina".
- Não estou interessado! - disse ele, e desligou na minha cara.O cara
era mesmo mal-educado. Rapidamente, disquei novamente: - Alô?
- É por isso que você é um filho da puta!!! e desliguei.
Aqui vale até uma sugestão: se existe algo que realmente está lhe
incomodando, você sempre pode fazer alguma coisa para se sentir melhor:
simplesmente disque 0xx41-7643.6732 ou o número de algum outro filho da
puta que você conheça, e diga para ele o que ele realmente é.
Aconteceu que eu fui até o shopping, no centro da cidade, comprar umas
camisas. Uma senhora estava demorando muito tempo para tirar o carro de
uma vaga no estacionamento. Cheguei a pensar que nunca fosse sair.
Finalmente seu carro começou a mover-se e a sair lentamente do seu
espaço. Dadas as circunstâncias, decidi retroceder meu carro um pouco
para dar à senhora todo o espaço que fosse necessário: "Grande!" pensei,
"finalmente vai embora". Imediatamente, apareceu um Vectra preto vindo
do outro lado do estacionamento e entrou de frente na vaga da senhora
que eu estava esperando. Comecei a tocar a buzina e a gritar:
- Ei, amigo. Não pode fazer isso! Eu estava aqui primeiro!
O fulano do Vectra simplesmente desceu do carro, fechou porta, ativou o
alarme e caminhou no sentido do shopping, ignorando a minha presença,
como se não estivesse ouvindo. Diante da sua atitude, pensei: "Esse cara
é um grande filho da puta! com toda certeza tem uma grande quantidade de
filhos da puta neste mundo!".
Foi aí que percebi que o cara tinha um aviso de "VENDE-SE" no vidro do
Vectra. Então, anotei o seu número telefônico e procurei outra vaga para
estacionar. Depois de alguns dias, estava sentado no meu escritório e
acabara de desligaro telefone - após ter discado o 0xx41- 7643.6732 do
meu velho amigo e dizer "você é um filho da puta" (agora já é muito
fácil discar pois tenho o seu número na memória do telefone), quando vi
o número que havia anotado do cara do Vectra preto e pensei: "Deveria
ligar para esse cara também". E foi o que fiz. Depois de um par de
toques alguém atendeu:
- Alô.
- Falo com o senhor que está vendendo um Vectra preto?
- Sim, é ele.
- Poderia me dizer onde posso ver o carro?
- Sim, eu moro na Rua XV, n° 527. É uma casa amarela e o Vectra está
estacionado na frente.
- Qual e o seu nome?
- Meu nome e Eduardo Cerqueira Marques - diz o cara.
- Qual a hora é mais apropriada para encontrar com você, Eduardo?
- Pode me encontrar em casa à noite e nos finais de semana.
- É o seguinte Eduardo, posso te dizer uma coisa?
- Sim.
- Eduardo, você é um grande filho da puta!!! - e desliguei o telefone.
Depois de desligar, coloquei o número do telefone do Eduardo (que
parecia não ter "bina", pois não fui importunado depois que falei com
ele) na memória do meu telefone. Agora eu tinha um problema: eram dois
"filhos da puta" para ligar. Após algumas ligações ao par de "filhos da
puta" e desligar, a coisa não era tão divertida como antes. Este
problema me parecia muito sério e pensei em uma solução: em primeiro
lugar, liguei para o "filho da puta 1". O cara, mal-educado como sempre,
atendeu:
- Alô - e então falei:
- Você é um filho da puta - mas desta vez não desliguei.
O "filho da puta 1" diz:
- Ainda está aí, desgraçado?
- Siiimmmmmmmm, amorrrrrr!!! - respondi rindo.
- Pare de me ligar, seu filho da mãe - disse ele,irritadíssimo.
- Não paro nããão, filho da putinha querido!!!
- Qual é o teu nome, lazarento? - berrou ele, descontrolado! Eu, com voz
séria de quem também está bravo, respondi:
- Meu nome é Eduardo Cerqueira Marques, seu Filho da Puta. Por quê???
- Onde você mora, que eu vou aí te pegar, desgraçado? - gritou ele.
- Você acha que eu tenho medo de um filho da puta? Eu moro na Rua XV, n°
527, em uma casa amarela, e o meu Vectra preto está estacionado na
frente, seu palhaço filho da puta. E agora, vai fazer o quê???? - gritei
eu.
- Eu vou até aí agora mesmo, cara. É bom que comece a rezar, porque você
já era. - rosnou ele.
- Uuiii! É mesmo? Que medo me dá, filho da puta. Você é um bosta! E eu
estou na porta da minha casa te esperando!!! - e desliguei o telefone na
cara dele.
Imediatamente liguei para o "Filho da puta 2".
- Alô - diz ele.
- Olá, grande filho da puta!!! - falei.
- Cara, se eu te encontrar vou...
- Vai o quê? O que você vai fazer??? Seu filho da puta!
- Vou chutar a sua boca até não ficar nenhum dente, cara!!!
- Acha que eu tenho medo de você, filho da puta? Vou te dar uma grande
oportunidade de tentar chutar minha boca, pois estou indo para tua casa,
seu filho da puta!!! E depois de arrebentar sua cara, vou quebrar todos
os vidros desta porcaria de Vectra que você tem. E reze pra eu não botar
fogo nessa casa amarelinha de bicha. Se for homem, me espera na porta em
5 minutos, seu filho da puta!!! - e bati o telefone no gancho.
Logo, fiz outra ligação, desta vez para a polícia. Usando uma voz
afetada e chorosa, falei que estava na Rua XV, n° 527, e que ia matar o
meu namorado homossexual assim que ele chegasse em casa. Finalmente
peguei o telefone e liguei o programa da CNT "Cadeia" do Alborguetti,
para reportar que ia começar uma briga de um marido que ia voltando mais
cedo para casa para pegar o amante da mulher que morava na Rua XV, n°
527.
Depois de fazer isto, peguei o meu carro e fui para Rua XV, n° 527, para
ver o espetáculo. Foi demais, observar um par de "filhos da puta"
chutando-se na frente de duas equipes de reportagem, até a chegada de 3
viaturas e um helicóptero da polícia, levando os dois algemados e
arrebentados para a delegacia.
Moral da história? - Não tem moral nenhuma! Foi de sacanagem mesmo...
E vê se atende o telefone educadamente, pois posso ser eu ligando para
você por engano...
Saudações,

 
Mulher e o Computador
(por L.F.Veríssimo)


- Zé, vem pra cama. São mais de três horas!
- Peraí, Flavinha... Tô quase acabando...
- Esse negócio de internet vai é te deixar internado num manicômio!
- É pra faculdade. Trabalho de economia. Tô pesquisando em vários jornais
do mundo é o Asahi Shimbun.
- Saúde!
- Saúde o que?
- Você espirrou.
- Não sacaneia! Asahi Shimbun é um jornal japonês!
- E desde quando você sabe ler aqueles pauzinhos?
- Essa edição está em inglês. E não são pauzinhos, são ideogramas.
- Quanta erudição!
- Pára de perturbar e volta pra cama, senão a pesquisa não sai hoje.
- Como é que eu vou dormir com essa impre! ss! ora fazendo tanto barulho?
- Tá. Eu desligo a impressora, passo tudo pro C e amanhã imprimo o resto.
- Passa PRA MIM o quê?
- Não é PARA VOCÊ, é para o C, que representa o HD onde a gente
guarda tudo no computador... Ah, esquece.
- Esquece porque? Você acha que eu sou burra demais pra aprender essas
coisas?
- Não é isso. É que a gente precisa de um conhecimento específico pra
entender o funcionamento dessas máquinas, e de mais a mais, a essa hora da
madrugada não dá pra raciocinar direito. Vai pra cama.
- Zé... Só mais uma coisa rapidinho: como é que você consegue achar
aí um jornal do Japão?
- Fácil. Pelo Browse a gente entra em alguns sites que fazem o papel
de catálogos e Home Pages. Você digita um nome ou um assunto e faz uma
pesquisa...
- Tra! du! z.
- Porra... Tem uns... uns.. uns programas que têm todos os endereços
de páginas na internet.
- O que que é um BRAUSE? É grande?
- Ô Flávia, você vai sacanear ou prestar atenção?
-Cumé que eu vou entender essa língua que você tá falando?
- É bráulio, romipeige, saite ..
- Não é bráulio: é Browse. E vê se cala essa boca e presta um
pouquinho de atenção. Tem uns programas que servem de catálogos, então a gente
escolhe o assunto e pesquisa através do Browse, aí aparecem na tela os endereços
e é só escolher um, clicar duas vezes em cima com o mouse que aparece a Home
Page... A página que você quer.
- Página? Não é tela?
- A gente chama de página o programa que aparece na tela. Ou Home Page.
- Outra coisa: esse tal de bra! us! e dá só o endereço? A internete não é pelo telefone?
- Ai meu cacete!
- Que grossura! Custa explicar?
- Endereço na internet é um código que se digita para acessar as páginas.
É claro que é por telefone. Agora chega! Não vou mais fazer pesquisa
nenhuma. Deixa pra amanhã, que eu já enchi o saco. Aliás, amanhã eu juro:
vou comprar um pentium para deixar lá no escritório e...
- Pra quê um pente no escritório? Você passou máquina zero no cabelo ontem...!!!
- Vai pra puta-que-pariu...

quarta-feira, novembro 12, 2003

 
Uma rainha africana de pele de marfim

Por Charles Coyote

Um dia destes estava conversando com um velho amigo, o Jorginho. Sempre admirei nele três coisas: a quantidade incrível de discos de jazz que ele tem, a capacidade invejável de torrar grana e os casos que ele afirmava ter tido com as deusas da época de ouro de Hollywood. Bem, acho que o que restou de tudo foram os discos de Jazz, já que nunca mais ouve uma mulher como Gilda e a grana de Jorginho parece ter virado fumaça. Mas ele sobe aproveitar bem a mesma. Como diria um velho ator de hollywood, aquele que chega ao final da vida com mais de dez mil dólares na conta bancária é um fracasso.
Naquele dia, escutávamos alguma coisa do Duke Ellington enquanto bebíamos. Ele falava sem um pingo de arrependimento de seu passado de playboy. Também se queixava de que não se fazia mais Jazz como antigamente. Nem tampouco atrizes. Ao mesmo tempo que elogiava o erotismo proporcionado pela visão das coxas de Ava Gardner, desprezava o sexismo explícito da famosa cruzada de pernas da Sharon Stone. Bem, não tenho nada contra a xereca da Sharon Stone. Aproveitei e contei a ele aquela velha piada do náufrago que estava isolado do mundo em uma ilha, sozinho com a Sharon Stone. Ele estava trepando com, provavelmente, uma das mais desejadas mulheres do mundo. Mas algo o agoniava. Então ele fez o estranho pedido a Sharon para que ela vestisse as roupas dele, de forma que ela se parecesse com um homem, e pediu para ela ir caminhando pela praia, enquanto ele foi caminhando pela praia no sentido oposto. Quando se encontraram, ele chega para a travestida Sharon, bate no ombro dela e solta: “Cara, tu não vai acreditar quando eu disser quem eu estou comendo”.
Após algumas risadas, discorremos acerca desta necessidade tão masculina de propagar aos seus semelhantes um ato sexual. Seria a necessidade de provocar inveja? Bem, esta dúvida filosófica rendeu ainda umas três doses de uísque. Ele me perguntou se eu agiria assim se eu “traçasse” uma famosa. Eu apenas respondi que nunca saberia, pois dificilmente isso ocorreria comigo. Jorge riu e me lembrou uns três casos que tive com atrizes de TV.
- Ora, não poderia considerá-las atrizes. Estavam mais para modelos tentando atuar. Fora que não são famosas. Além do mais, a Débora estava casada na época, pegaria mau sair falando para todo mundo...só comentei contigo e porque você disse que a conhecia.
- Todo mundo a conhece. Ela é famosa. Está até fazendo novela, agora.
- Bem, não assisto novela, mesmo.
Acho que o malte escocês deve inspirar conversas estranhas. Filosofávamos sobre o porquê que o homem buscava desesperadamente por fortuna, fama, poder. Depois de algumas teorias, disse a ele que tudo isso – dinheiro, poder, fama – era apenas um meio, uma maneira de se alcançar o verdadeiro objetivo. Após algum suspense, disse-lhe que objetivo seria esse: a grande trepada. Explicando, falei que todos apenas queriam dar “a trepada”, e para atrair o sexo oposto, sentia a necessidade de ser rico, famoso ou poderoso. Ou as três coisas. E quanto maior a fama, fortuna e poder, maior é a trepada desejada. Concluí a teoria dizendo que eu, particularmente, me concentrava mais em atingir esta trepada do que em obter estes meios. Meu amigo não concordou nem discordou, apenas se limitou a uma pequena risada seguida do balançar do copo. Mudamos de assunto, e depois mostrei a ele um CD da Nora Jones e outro da Diana Krall. Escutamos um pouco, e Jorginho comentou que não se faziam mais musas como Billie Holliday ou Ella Fitzgerald. Deixei os Cd’s com ele e pedi para ele dar uma chance às moças, e ele me sugeriu escutar “Jazz de verdade”. Depois me despedi, prometendo visitá-lo em breve.
Horas depois, estaria em uma loja de CD, procurando “Jazz de verdade”, segundo a definição de Jorginho. Encontrava apenas coletâneas dos velhos ícones do Jazz. Bem, acabei pegando uma de Jonh Coltrane que me agradou.
Enquanto via a relação de músicas na capa do CD, encontrei um dos mais belos pares de olhos que vi esta semana. Verdes como azeitonas em uma taça de Martini. Acompanhavam uma boca carnuda e um rosto ponteado por sardas sutilmente escondidas por alguma maquiagem. Ela estava procurando algo na seção de rock. Me aproximei dela sem demonstrar aparente interesse, e fingi procurar um CD na mesma seção. Encontrei na seção de Blues um CD de Eric Clapton, dos antigos. Noto que o CD chama-lhe a atenção. Não devolvo o CD a prateleira e o seguro, junto ao CD de Coltrane. Me viro e noto seu olhar para os CD’s em minha mão, e propositadamente eu paro meu olhar visando seus olhos e sorrio de leve. Ela retribuiu o sorriso, e pergunta.
- Tem algum outro CD destes por aí?
- Não. Só vi este que estou segurando.
- Estava procurando um CD de Eric para dar de presente. E este aí ele não tem.
- É dos antigos. Realmente é difícil encontrá-lo. E eu recomendo a qualquer um que gosta de boa música.
- Posso vê-lo?
- Claro.
Passo o CD a ela. Meus dedos tocam os dela e eu volto a sorrir para a jovem. Agora que estou mas perto, observo mais detalhes: ela é alta, quase um e oitenta de altura. Seios fartos, mas não exageradamente. Quadris largos, pele clara. Cabelos loiros e compridos. Estava usando um vestido simples e estampado, o que dava a ela um ar de menina-moça. Chutaria uns vinte e sete para trinta anos. Muito bonita, mesmo. Sorvo o ar a minha volta.
- Moschino.
- Como? – pergunta ela.
- O perfume que está usando.
- Ah. Sim, é isso mesmo.
Ela baixa a vista, tanto para ler o encarte do Cd quanto para evitar meu olhar. Nesse instante, chegam dois adolescentes e falam com ela. Eu me afasto um pouco e finjo estar procurando outro CD. Noto que os adolescentes a conhecem e pedem que ela escreva algo. Escutei a palavra “autógrafo”. Autógrafo? Tudo bem, ela é muito bonita, mas ao ponto de pedirem autógrafo? Os garotos de hoje não sabem dar cantadas...
Quando os garotos saem, eufóricos, volto para ela e pego delicadamente o CD.
- Sei que gostou, mas eu vi primeiro – digo, num tom complacente.
- Você deixaria eu levar este CD? – pergunta, de um jeito bem meigo e doce.
- Menina, acho que com esta voz e este corpinho você já deve ter conseguido muita coisa, mas não funciona comigo. Além do mais, vou comprar para presentear alguém.
Imaginei que ela levaria na brincadeira, mas percebi que ela se irritara com o comentário. Bem, não se pode fazer nada a respeito da flecha lançada e da palavra proferida. Apenas mantive meu sorriso, e puxei assunto.
- Só por curiosidade, para quem é o presente?
- Para meu namorado.
- Ele não precisa de presente. Vê-la todo dia deveria ser considerado uma dádiva dos deuses.
Ela voltou a sorrir com o comentário. Peço licença e me dirijo ao caixa.
- É para a sua namorada?
- Bem, quem sabe? Talvez depois do presente...
Ela continua procurando algum CD. Após pagar os dois CD’s, volto para seu lado e estendo um dos discos, embrulhado para presente, para ela.
- Pronto. Eis aqui.
- Para mim? Não posso aceitá-lo...
- Por que não? Eu já tenho este CD, mesmo...
- Não acredito que você fez isso.
- Por que não? Acho que todo mundo merece escutar boa música.
- Acho que se trata de mais do que isso.
- Bem, de qualquer maneira, ainda não sei o seu nome. Charles Coyote, ao seu dispor.
Beijo-lhe a mão de traços delicados.
- Você não sabe quem eu sou?
- Deveria? Bem, agora preciso saber. Pode me dizer enquanto tomamos café na rôtisserie aqui em frente...
- Adoraria, mas estou com um pouco de pressa...
- Eu não. Sou um homem paciente.
Apesar de relutar um pouco finalmente ela concorda. Sentamos na rôtisserie e ela pede um sanduíche de rúcula. Me contento com um capuccino. Deixo-a a vontade e ela começa a falar a respeito de sua vida. Ela fala seu nome. Sou péssimo com nome de mulheres. Lembro o seu primeiro nome. Luana. Sei que seu segundo nome, de acordo com ela mesmo, é o nome de uma rainha de uma tribo africana. Pavani, acho eu. Uma rainha africana de pele clara. Ela menciona que começou como modelo e já morara no Japão, Suíça e Estados Unidos. Era natural de São Paulo, passara a infância no interior mas atualmente está no Rio de Janeiro. Ofereço um licor e ela aceita. Compro um maço de cigarros Gudang Garam e ofereço-lhe um. A jovem apanha um deles e eu acendo-o com meu velho isqueiro, colega de aventuras pelo mundo afora. Ela mexe o cabelo, se inclina em minha direção e pega em minha mão, sorrindo muito.
Seu perfume, o odor do licor, a fumaça com aroma de cravo do cigarro...a velha química, cujo resultado já é por mim conhecido. Sorrimos.
Pouco depois, estamos em um apartamento no Leblon. Me oferece uma bebida. Resolvo colocar o CD do Eric Clapton para tocar. Pouco mais de três minutos de uma música de ritmo agitado. Sei o que vem na seqüência, e preparo o terreno. Massageio seus ombros à mostra, e quando a música acaba, arrisco um beijo. Os primeiros acordes de guitarra de “Wonderful Tonight” a fazem inclinar a cabeça para trás, enquanto minha língua explora seu busto. Desabotôo seu vestido, que cai aos seus pés. Um sutiã meia-taça Victoria Secrets realça a beleza de seus seios arredondados. Arranco-o com vontade e mordisco seus mamilos. O deus da guitarra abençoa esta união. Você está maravilhosa esta noite, diz ele. Jogo-a por sobre o sofá da sala, e lembro de tirar a minha roupa. Ela me ajuda, com fúria. Estamos nus, rolando sobre o carpete da sala. Nos amamos loucamente.
Depois a levo para o quarto, ela abraçada em mim, suas pernas compridas em torno de meus quadris, sua boca carnuda sugando-me. Caímos sobre a cama, e a possuo mais uma vez. Seus gritos imploravam para que eu a batesse. Dei palmadas que deixaram a marca de meus dedos em suas nádegas. Penetrei-a por trás, enquanto mordia suas omoplatas e chupava sua nuca. Segurei seu queixo e lambi sua orelha. Ela gozou. Eu ainda não. Tentamos outras posições, e ela estava ensandecida! Fazia tempo que não trepava tão intensamente. E ela também , pelo visto.
Depois, enquanto relaxávamos sobre a cama, ela acendeu um cigarro sem filtro com papel de palha. O cheiro era inconfundível. Ela me ofereceu. Recusei educadamente.
- Ë careta? – ela pergunta.
- Não, apenas não transo mais estas coisas.
Como diria meu filósofo preferido, o Reginaldo Rossi, prefiro cheirar a xota das meninas a uma carreira de pó. Mas achei que não seria apropriado citá-lo naquele momento.
- Fumo só às vezes, para dar uma relaxada.
Olhando para o cigarro de maconha acesso entre os seus dedos, ela comenta, meio displicente:
- Você acredita que, só porque fiz este comentário em uma entrevista, tem gente querendo me processar e me prender? É este tipo de hipocrisia que eu não admito. É ridículo. No mínimo, é alguém querendo aparecer.
- Você tem um corpo lindo – digo, para mudar de assunto, enquanto percorro seus contornos com minhas mãos, tocando o mons Veneris cheio de pêlos.
Ela sorri, meio sem jeito.
- Acredite. Apesar de já ter posado para uma revista, não mostrei minha nudez total.
- Sou um privilegiado, então?
- Pois é. Os outros terão que ficar sem ver minha periquita.
- Por que? Tem vergonha?
- Não, apesar que já tive vergonha de ser bonita. Mas sou mais do que isso. Quero provar a todos que tenho mais do que um rosto e corpo bonito, e que meu sucesso não depende exclusivamente de minha beleza física. E não preciso da grana que ganharia com isso. Além de que, não me agrada a idéia de um bando de moleques tocando punheta para uma foto minha.
- Por isso você ficou zangada quando me recusei a deixar você comprar o CD, quando insinuei que você conseguia as coisas com seu charme?
- Você notou? Pois é. Mas o engraçado é que o que me atraiu em você foi que você não me paparicou nem me tratou de forma diferente por eu ser bonita ou famosa. Mas foi cavalheiro.
Continuei sendo cavalheiro, por isso não perguntei “famosa quem”? Particularmente nunca a vi em nenhuma das revistas que leio. Mas ela não me é estranha, mesmo. Mas deixa quieto. Ela se levanta e vai ao banheiro, dizendo que vai tomar banho. “Não demoro”, promete ela. No CD player, está tocando uma música de Caetano Veloso. Ela confessa que o adora. Escuto o barulho do chuveiro, mas noto que ela não entra de imediato sob a ducha. O “não demoro” já está levando uns quinze minutos. Me mantenho deitado, mas perscruto o quarto como que se estivesse invadindo sua intimidade. Discos, livros, perfumes, roupas. Algumas fotos, muitas delas com um jovem ao seu lado. Provavelmente seu namorado. Deveria me sentir mau por estar agora possuindo algo que aquele homem ao qual não conheço acredita ser dono e senhor? Citando novamente meu filósofo favorito, antes dividir um prato de fílé do que comer sozinho um prato de merda. Estou meio cansado. Já não sou aquele garoto de anos atrás.
Estava quase dormindo quando minha Luana aparece, usando uma peruca preta e um vestidinho preto, transparente e sexy. Discretamente olho para o relógio. Fazia quase uma hora que ela entrara no banheiro. Ciente e acostumado com as fantasias femininas, simplesmente pergunto, sem maiores explicações, entrando em seu jogo.
- E você, quem é?
- Meu nome é Valentina. Muito prazer – diz isso, enquanto empurra meu peito com o sapato de salto agulha, me fazendo deitar completamente.
- O prazer será meu, pelo que vejo.
Ela senta sobre meu púbis, seu vestido minúsculo subindo enquanto ela abre as pernas. Sinto seu peso sobre meu membro e ela se inclina sobre meu tronco, lambendo meu tórax. Suas mãos seguram meus pulsos, e percebo que estão sendo amarradas com uma echarpe de seda aos cantos da cama.
- O que você planeja fazer, Valentina?
- Está com medo?
- Não. Apenas curioso – e com medo, também. A última que encarei fantasias femininas aquela americana doida apareceu com uma vela de sete dias e pingou cera no meu pau.
- Tenha paciência.
Passamos o resto da noite trepando. Mas confesso que não tenho mais este pique todo. Mas ela não deixaria homem algum negar fogo. Antes de dormirmos, ela me pergunta:
- Quem é Beatriz? Sua namorada?
- Não. É alguém que eu não vejo a muito tempo. Como você sabe...?
- Escutei você sussurrando o nome dela enquanto cochilava, a pouco.
Beatriz...onde andará Beatriz? Sinto falta daquele corpo perfeito, daquele sorriso, daquele humor...estaria ela sentada ao lado de Deus, como nos poema de Dante, ou despencou do céu e os pagantes não pediram bis enquanto o arcanjo tirava o chapéu, como na música de Chico Buarque? Ah, Beatriz, eu vejo seu rosto em cada mulher que encontro, mas nenhuma chega a seus pés. Bem, isso acaba fazendo com que ela fale a respeito de um romance que tivera a anos atrás que a deixou por meio ano arrasada. Um namoro de menos de um mês havia causado tamanho estrago. Ele a abandonara e em seguida se casara com outra. “Pelo menos a porra do casamento não durou”. Que consolo. Acho que ela me falou isso apenas para que eu falasse de Beatriz. Após alguma insistência, desistiu e dormiu. Que curiosidade! Seria ciúme? Vai saber. As mulheres...
Pela manhã, me levanto antes dela e me visto o mais silenciosamente possível. Acho que o extremo da intimidade é acordar junto, e não dormir junto, trepar. Isso todo mundo faz. Mas acordar junto, escancarando as intimidades...deixa pra lá.
Ela meio que acorda, e pergunta, com a voz meio morta.
- Me liga?
- É claro, minha linda. Mas devo procurar Luana ou Valentina?
Ela ri e volta a dormir. Provavelmente não ligarei. Como fiz com as outras. Nesse ponto sou incorrigível. E sei o quanto mulher odeia isso. Talvez ela me ligue ou me encontre. Beatriz...nunca mais havia pensado nela. Será que um dia a encontrarei, para terminarmos aquilo que começamos? Ou ela estará fadada a povoar meus sonhos para o resto dos meus dias? Bem, enquanto for assim, ela continuará imbatível e insuperável. Sinto, Luana, tivemos uma ótima noite, você vale por duas, mas Beatriz continua em primeiro no meu ranking.

 
Charles Coyote, vida e obra

Quem é Charles Coyote?
Homem de meia idade, um pouco moreno, relativamente conservado. Não faz regime e nem é obcecado por exercícios ou academias. Não se sabe ao certo o que faz para ganhar dinheiro. Se perguntam a ele quanto ganha ou tem, se limita a dizer “o suficiente”. O mesmo vale para a idade. Não é muito bonito e tem uma pequena barriga, mas isso não parece incomodar as mulheres que o acompanham a alcova. E não são poucas.
Falando em mulheres, este é um capítulo a parte na biografia deste cidadão distinto. Charles Coyote não é músico famoso, nem pagodeiro (músico e pagodeiro são antônimos para Charles), nem empresário ou jogador de futebol. Não costuma sair em coluna social, nem estampa capa de revistas como CARAS, QUEM ACONTECE ou ISTOÉ GENTE. Todavia, ele conhece muita gente famosa. E, principalmente, mulher famosa. Elas compartilham momentos de prazer com ele. Ate aí, nada demais. O detalhe é que para ele é irrelevante estar trepando com uma mulher que povoa o imaginário masculino nacional (e internacional, até). Até porque ele é meio desligado em relação às badalações e celebridades. E, por maior e mais deslumbrante que seja o panteão de divindades que tiveram a oportunidade de fazer sexo com ele, não sai de sua mente a imagem de uma mulher: Beatriz. Quem seria ela? Um velho amor não correspondido do passado? A imagem da mulher ideal que ele incansavelmente busca? O nome de um travesti? Vai saber.
Pois bem, vamos ao que interessa. Charles também tem suas pretensões literárias, e está escrevendo suas memórias. E fragmentos da mesma estarão disponíveis para deleite de nossos leitores.

segunda-feira, novembro 03, 2003

 
Jecé Tico, o médium que não acredita em espíritos
Jecé sempre foi um cidadão comum, com uma pequena exceção: ele duvidava de coisas que a maioria das pessoas acreditava. Sua paixão era o método científico, era fã de Carl Sagan, desdenhava de homeopatia, Feng Shui, quiromancia, horóscopo. Paulo Coelho era charlatão e picareta, segundo sua própria definição. Já acabou diversos namoros só porque descobria que suas namoradas acreditavam em duendes ou anjos. OVNS e abduções alienígenas eram piadas de mau gosto. Enfim, um cético. Aliás, seu nome é Jecé Tico.
Um belo dia, Jecé Tico estava viajando de ônibus. Ao seu lado, uma bela mulher. Ele puxa conversa. Ele diz ser advogada e trabalha como estagiária no fórum da capital. Enquanto conversavam, na TV do ônibus passava um filme. Era “Jurassic Park”.
- Já assisti esta porcaria umas dez vezes.
- Pois é.
Jecé já estava mau intencionado e estava prestes a dar o bote definitivo. Porém, ela puxa assunto sobre os dinossauros.
- Os dinossauros...engraçado eles terem morrido...
- Existem algumas teorias sobre o seu desaparecimento...
- Pois é. Já eu acho que eles morreram porque eram muito grandes para a Arca de Noé.
Jecé quase tem um ataque, mas se controla para não ser grosseiro. Apesar de ainda querer muito passar umas horas agradáveis com a jovem, a idéia de se lembrar desta “pérola” na hora H e broxar não sai de sua cabeça. De repente um barulho grande. E tudo fica escuro.

- O que houve?
- Você está me escutando? Quantos dedos tenho aqui?
- O bastante. Onde diabos estou? Por que estou deitado? É um hospital?
- Ocorreu um acidente grave no ônibus que você viajava. Você foi internado às pressas. A algumas horas você foi dado como morto, mas depois retomou os sinais vitais. É um milagre!
- Que mané milagre. Acho que seu eletrocardiograma é que deve estar com defeito. Por acaso pareço com alguém que quase morreu?
- Com é que é?
- Como é que é o que?
- Morrer. Você viu uma luz, um túnel...
- Pra falar a verdade, sim. Era o caminhão que vinha na contramão e trombou na porra do ônibus que eu vinha.
Parece que Jecé não deu muita importância a esta experiência próxima a morte. Dias depois, ainda em observação no hospital, ele está lendo um livro do Carl Sagan e escuta alguém chamá-lo.
- Ei, você pode me escutar ?
Jecé para a leitura e olha em volta. Não vê ninguém. Dá de ombros. Pouco depois, escuta de novo.
- É verdade. Você pode me ouvir.
Assustado, Jecé fecha o livro e olha em volta. Ninguém por perto.
- Agora lascou. Quem é o gaiato que tá tirando uma comigo?
- Ei, você não pode me ver, mas pode me escutar. Está me ouvindo?
- Quem diabos está falando?
- Meu nome é Rodrigues, e eu morri naquele acidente de ônibus.
- Ah, deve ser brincadeira, mesmo. Tou achando muito engraçado. Muito bem, pessoal, adorei, mas apareçam.
Entra uma enfermeira
- Deseja algo, senhor?
- Que acabem com esta brincadeira. Tem um gaiato fazendo alguma brincadeira.
- Não é brincadeira. Estou morto, mesmo.
- Você ouviu?
- Não ouvi nada não, senhor – responde a enfermeira, sem entender absolutamente nada.
- Ah, é brincadeira.
- Você precisa acreditar...
- Que ótimo. Tá bom. Já vi que é brincadeira. Pode sair de onde estiver.
A enfermeira sai lentamente.
- Vou chamar o médico. Acho que o senhor não está bem.
- Estou muito bem. É só parar com esta brincadeira.
- Não é brincadeira, já disse. Preciso de sua ajuda.
- Agora pronto. Quer acabar com isso!?
A enfermeira sai sorrateiramente do quarto, crente que o paciente está meio pancada.
- Enfermeira, aonde vai?
- Ele deve ter se assustado. Ele não pode me escutar.
- Quem vai escutar agora é você. Pode acabar com esta brincadeira, pois quando eu sair daqui você vai se preocupar em morrer de verdade.
- Já estou morto. Quer prova?
- Ah, tá. Vai me provar como? Vai fazer um retrato falado de Deus?
- Levante e siga minhas orientações.
Jecé se levanta e segue pelos corredores do hospital. Sempre olhando em volta, procurando a origem da voz, ele segue as orientações da mesma. Ele acaba entrando no necrotério do hospital.
- Muito bem, onde é a festa surpresa?
- Levante este pano.
Jecé obedece a voz e levanta o pano, vendo o cadáver rígido de um homem.
- Maravilha. Um presunto. E daí?
- Sou eu.
- Ah, que bela prova.
- Ainda acha que é brincadeira?
- Para falar a verdade, não. Acho que a pancada afetou minha cabeça e estou ficando doido. Preciso procurar o médico e dizer isso a ele.
- Você não está doido. Você quase morreu, mas não morreu. Mas, de alguma forma, esta experiência lhe deu a capacidade de escutar os mortos.
- Isso não existe. Canalização de gente morta é fraude. Nunca ninguém deu uma prova convincente disso. Ainda acho mais fácil eu estar doido. Já ouviu falar em Guilherme de Ockham?
- Que é que tem eu? –pergunta uma terceira voz.
- Quem é, agora?
- Acho que é teu conhecido, o tal Guilherme. Era parente seu?
- Ai meu saco. Ele era um filósofo católico da idade média, e ele cunhou uma expressão conhecida como “navalha de Ockham”, que diz que se duas explicações elucidam um fenômeno, deve se escolher a mais simples.
- Sim, e daí?
- Daí que temos duas explicações para o fato de estar escutado vozes: ou realmente adquiri a capacidade de escutar gente morta, que consiste em formas conscientes sem substância ou volume. Ou então o acidente perturbou a química do meu cérebro e estou tendo alucinações.
- Bem, a opção dos mortos me parece bem mais simples.
- Como é? Endoidou? Acha mais simples acreditar em vida após morte do que considerar todas as hipóteses neurológicas, como a administração de alguma droga, uma concussão, ou alguma vibração mecânica de baixa freqüência que afeta meu cérebro...
- Como eu disse, é a mais simples. Quer saber a opinião de seu colega Guilherme?
- Não, muito obrigado. Já basta uma voz em minha cabeça. Isso também pode ser um conflito interno, minha personalidade dividida entre que sou hoje e a minha criação católica...
- Meu, tu é complicado. Estou morto e você pode me ouvir. Quer mais simples que isso?
- Não é possível.
- Como não, você não está me ouvindo? Bem, vejo que você é uma pessoa não muito bem resolvida consigo mesmo.
- Ah, não. Além de tudo, um defunto que lê livros de auto-ajuda. Isso é demais.
- Ora, nunca leu Lair Ribeiro ou Paulo Coelho?
- Sou homem, porra. Ah, estou dando cabimento a voz em minha cabeça. Tenho que ignorar ele.
- Ignora isso: eu tava vendo tu ficar de pau duro quando a enfermeira estava lavando você.
- Bem, ele pode ter comentado isso com alguém.
- Só que ele não viu você se masturbando. Mas eu estava lá. Tu ainda toca punheta, cara? Fala sério...
- E daí que eu toco...digo, me masturbo?
- Oba. Toca uma em mim, então. Rêêêê!!
- Preciso de ajuda profissional. Urgente.
- O que? Vai procurar uma puta?
- Não é deste tipo de ajuda que estou falando...

Deitado em um divã, Jecé conversa com um senhor bem vestido.
- Quer dizer que o senhor está ouvindo vozes desde que sobreviveu ao acidente?
- Sim, doutor. Ele afirma ser um dos passageiros mortos.
- Isso provavelmente é um sentimento de culpa sublimado.
- Culpa pelo que?
- Por ter sobrevivido ao acidente, enquanto outros morreram.
- Ah, não acredito que você ainda acha que está louco – Jecé escuta a voz novamente.
- O senhor escutou, doutor?
- Está ouvindo as vozes, agora? Acho que seu caso é clínico. Devo prescrever algumas drogas...
- Que médico fajuto tu arrumou, hein?
- Quer calar a boca?
- O que disse?- pergunta o psiquiatra.
- Não é com o senhor, não.
- Ah, sim. As vozes. O que eles estão dizendo, agora?
Jecé espera alguns segundos. Depois fala.
- Ele tá chamando o senhor de charlatão.
- Uma óbvia reação de negação à verdade.
- Ele também está falando que você está pouco se fodendo para com seus pacientes, se limitando a encher o rabo deles de drogas. Também tá dizendo que você está enganando sua sócia e esposa. E que você é gay, e que está saindo com o paciente que vem aqui toda terça-feira à tarde.

Jecé é expulso, sendo empurrado para fora do escritório.
- O que houve com a minha hora?
- Não precisa pagar! Vá embora, não posso ajudá-lo!
- E minhas vozes?
- Vá você e suas vozes para a puta que pariu!
E bate a porta.
- Bem, que ele é gay, ele é. E Não assumido. Ele precisa se assumir, sair do armário...
- Então vá falar isso para ele. Eu, particularmente, não quero mais conversa.
- Você não pode me ignorar. Vou começar a cantar todo dia, toda hora. Vou começar. “Quer dançar, quer dançar, o tigrão vai ensinar...”
- Fudeu agora. Quer calar-se?
- Só se você me escutar.
- Tá, fala que eu te escuto!
Passa uma mulher neste momento, que olha desconfiada para Jecé.
- É só um novo tipo de terapia, minha senhora...
A mulher se afasta, olhando assustada para Jecé.
- Eu preciso de tua ajuda. Depois tu resolve se acredita ou não, tá certo?
- Se eu ajudar, você some?
- Com certeza.
- Bem, o que você quer?

Jecé sai do consultório e, guiado pele voz em sua cabeça, ele chega a um apartamento.
- Pronto, chegamos. O que devo fazer, agora?
- Toca a campanhia. Você deve falar com Miguel.
- Quem é ele?
- Meu... namorado.
- Ah, pronto. Tu era bicha? Além de tudo, mais essa. Tu tá me vendo pelado, por acaso? Bem, realmente é um defunto fresco...
- Ah, um comediante homofóbico. Isso, faz piada de minha desgraça.
- Bem, perco a canalização mas não perco a piada. Além do mais, você que começou com aquele história da enfermeira.
- Toque a campanhia. Quando ele atender, eu lhe dou instruções.
Após tocar a campanhia, atende a porta um homem jovem de cabelos escuros e curtos, com os olhos vermelhos. Parece que ele andou chorando.
- Boa tarde. Meu nome é Jecé. Você é Miguel?
- Sim, é ele. Fale com ele. Diz que tem um recado meu para ele.
- Tá, ta.
- O que disse, senhor? - pergunta Miguel.
- Nada, meu jovem. Preciso conversar contigo. E a respeito de Rodrigues, seu namorado...
- Por favor, entre...-ele não termina a frase, desatando a chorar.
Jecé entra e se senta. Miguel se recompõe.
- O que o senhor deseja?
- Bem, você pode achar até estranho ou achar que estou agindo de má fé, e nem acreditar em mim. De fato, nem eu estou acreditado muito...
- Não tapeia. Vai direto ao ponto – interfere a voz.
- Tá bom, tá bom. É o seguinte; eu estava no mesmo ônibus que seu namorado estava e que se acidentou.
- Você o conhecia?
- Pra falar a verdade, não...
- Vai direto ao ponto! - grita Rodrigues.
- Tá certo! É o seguinte: eu quase morri e agora eu escuto gente morta. Pronto, falei!
- Isso por acaso é alguma brincadeira?
- Ah, não acredita? Que bom, nem eu. Bem, com licença...
- Ei, aonde você vai? Ainda não falei o que você deve falar a ele.
- Ele não acredita, pronto. Isso prova que tem mais juízo do que eu. Vou embora, ora pois.
- Com quem você está falando? – questiona Miguel.
- Bem, com a voz que afirma ser o seu namorado.
- Olha, se isso é uma brincadeira, é de muito mau gosto. Vou chamar a polícia.
- Ah, agora lascou. Sabia que não daria certo.
- Você disse que me ajudaria. Não pode ir embora.
- Ele vai chamar a polícia. Creio que pra um morto não seja muito problema, mas acredite, pode ser muito inconveniente.
- Fala pra ele que eu ainda o amo! Ele vai acreditar!
- Ele falou que ainda o ama...ah, muito original. Dá pra dizer algo mais específico?
- Sai da minha casa.
- Estou tentando, mas ele não quer que eu saia.
- Diz pra ele que estou falando a respeito daquele noite que passamos sozinhos acampando enquanto seus pais pensavam que ele estava estudando. Só nós sabemos.
- Bem, ele mandou eu falar sobre aquele noite que passaram sozinhos acampando enquanto seus pais pensavam que você estava estudando.
- C-como você sabe?
- Só estou repetindo o que ele está me falando.
Ele senta-se e fica atônito.
- Só nós dois sabíamos sobre isso. Era segredo nosso. É verdade, então.
- Olha, meu querido. Tem outras explicações para isso. Ele pode ter comentado com alguém, e como você ainda está abalado emocionalmente, você estaria suscetível a crer em algo assim...
- Que porra tu tá fazendo? Agora que ele está acreditando, tu vem com este papo?
- Não posso evitar. Ainda não estou acreditando.
- Estou confuso. Você o escuta ou não?
- Eu estou escutando vozes, mas daí se são de gente morta ou é uma alucinação...
- Mas como você saberia deste segredo...
- Deve ter alguma explicação razoável.
- Ah, vá se foder. Em todos os médiuns em todas as cidades do mundo, tinha que parar logo em um que não acredita!
- Tá, tá. O que devo dizer, agora?
Miguel espera. Jecé fala.
- Ele tá falando que lhe ama muito, mas que precisa seguir em frente. E você deve fazer o mesmo. Ele te deseja muita sorte, que você arranje alguém, etc...bicho, que conversazinha pouco original. Acho que você assistiu muito “Alem da Eternidade”.
- Ah, meu saco. Apenas repete o que estou falando!
- Estou parecendo um destes vigaristas que quer arrancar dinheiro de viúvas incautas. Fala algo mais útil, como por exemplo a senha de alguma conta sua.
- Devo ter tomado caipirinha com o cálice sagrado em outra vida. Eu mereço. Vai, continua...
Jecé continua repetindo as frases de Rodrigues a Miguel. Por sua vez, Miguel conversa com Jecé como se estivesse convesando com seu namorado morto.
- Meu Deus, é incrível. Você escuta mesmo os mortos.
- Você se convence fácil.
- Não fode, Jecé – interrompe Rodrigues- Ainda não se convenceu que isso é verdade?
- Vai ser difícil.
- É sério? Você não acredita? Nem com as evidências? Você falou coisas que só eu e Rodrigues sabíamos. Qual é minha cantora favorita?
- Diz que é Bic Runga, uma cantora australiana.
- Quem é essa?
- Apenas diz, diacho!
- Ele falou Bic Runga.
- Olha aí. Ele não é muito conhecida por aqui.
Miguel se levanta e coloca um CD no toca-discos. Começa a tocar uma música cantada por uma voz suave e agradável.
- É isso?- pergunta Jecé.
- Mas tu é chato. Isso é lindo.
- Podia ser pior. Ainda bem que não é Celine Dion.
Miguel volta e se senta ao lado de Jecé.
- Adorávamos esta música. Seu nome é “Beautiful Collision”.
- Que bom. E aí, Rodrigues, vai passar mais um psicograma ou por hoje chega?
- Bem, eu queria pedir só mais uma coisa...
- Vai, o que é...?
- Já que você pode me escutar, talvez eu consiga me incorporar em seu corpo.
- Ah, ótimo. E daí?
- Se conseguir, gostaria de pedir mais uma coisinha...

Já na rua, Jecé começa a falar com visível irritação. Os transeuntes o observam, curiosos.
- Não acredito que você teve coragem de me pedir isso! Tu acha que eu tenho cara de quem costuma colar os bigodes com outro macho da espécie?
- Imaginei que era o mínimo que podia fazer por mim. Além do mais, o Whoopi Goldberg fez isso para o Patrick Swayze naquele filme, se agarrando com a Demi Moore...
- Miguel não é exatamente Demi Moore. Será que é isso? Eu sou um homossexual não assumido e esta voz seria o conflito interior de meu ego com meu superego?
- Ah, desisto. Vou pegar descendo. Digo, subindo. Descer nestas circunstâncias pode não ser muito bom.
- Que beleza. Só me faz um favor...não espalhe por aí que eu escuto gente morta o tempo todo. Até porque deve ter uma explicação razoável para isso tudo.
- Tá, tá. De qualquer modo, valeu.
- Tá. Putz, se isso fosse verdade, bem que poderia aparecer alguém mais interessante para trocar umas idéias...bem, preciso achar é uma explicação razoável para este fenômeno, antes que a Editora Planeta me descubra. Só falta eu chegar em casa e encontrar marcas misteriosas no meu jardim e começar a entortar talheres quando for comer...

 
Prelúdio

Diante de um terminal de vídeo holográfico, o homem vestido com roupas escuras o aciona com um comando vocal.
- Acessar sistema do Departamento se Segurança Pública.
Surge uma imagem holográfica de uma mulher vestida formalmente. Ela “fala” ao homem:
- Departamento de segurança pública metropolitana do Estado de São Paulo. Favor identificar-se:
- Código Operativo: 934-OGUM-01. Solicitando nível de acesso 4.
Uma luz vermelha percorre o rosto do homem, se detendo sobre os olhos.
- Identificação da voz, rosto e retina completos. Dia 01 de outubro de 2053, 8:07. Bom dia, Ogum.
- Informar Diligências Publicamente Delegadas de hoje. Categoria: homicídios.
- Acessando informação solicitada. Favor aguardar.
Após alguns segundos, a voz feminina volta a se pronunciar.
- Nome do(a) acusado(a):Geovana Lima Delgado. Acusação: principal suspeita de homicídio qualificado de Fernando Lima Delgado, seu marido, em 30 de setembro último.
A imagem da mulher some. Surge então uma imagem tridimensional e estática da cabeça de uma mulher morena, jovem, de pele clara. Ela é Geovana.
- Mostre detalhes do crime.
É projetado um mapa da área metropolitana da cidade de São Paulo. Destacam-se no mapa holográfico cinco estruturas que circundam a cidade. Cada uma destas estruturas é um Megacondomínio, local aonde edificações imensas abrigam escritórios e moradias protegidos por segurança automática e privada. Interligadas entre si por um sistema de monotrilhos, as cinco estruturas – batizadas de Neocitie e numeradas de um a cinco - são o máximo exemplo de arquitetura e urbanismo, planejadas para oferecerem aos seus habitantes segurança, habitação, trabalho e os demais serviços. Para quem possa pagar por tudo isso.
- Crime ocorreu a poucas horas no complexo residencial de Neocitie II, residência dos Delgado. Ferimento fatal por arma de fogo, provavelmente uma pistola .2222, não encontradano local.
Ogum não solicita maiores informações. Ele sabe quem é a vítima e quem é a principal suspeita. Atualizado com as notícias, ele se lembra de um escândalo envolvendo ambos, um criminoso procurado e um antigo parceiro.
- Um outro agente autônomo já solicitou informações acerca deste caso. Este caso não tem solicitação de exclusividade, podendo ser executado por qualquer agente licenciado. Remuneração de 3500 bônus para captura da suspeita. Nível de periculosidade médio-baixo.
Se virando para um painel na parede ao lado, ele prime a palma de sua mão direita contra o mesmo, e ele se abre. Dentro do painel, um par de pistolas de aparência moderna são expostas. Ambas são pegas por Ogum. Ele as examina rapidamente, observando as mesmas serem destravadas automaticamente ao serem empunhadas. As pistolas são colocadas em coldres magnéticos presos a cintura de Ogum. Agora ele apanha um par de luvas e as calça. Por fim, ele coloca um par de óculos escuros. Na realidade estes óculos estão conectados por um sistema sem fio ao computador pessoal que ele carrega preso em seu cinto, que por sua vez interliga as armas que está portando e uma série de sensores dispostos ao longo de seu uniforme. Sob a lente dos óculos, surgem caracteres sobrepostos a imagem vista através das lentes. Nos fones de ouvido, uma voz artificial soa concomitantemente ao surgimento das mensagens na tela do óculos.
Iniciando BIOS...
Testes do sistema...OK
Teste dos sensores...OK
Acessando Link a rede Metropolitana...OK
Carregando Subrotina de controle de fogo...
Identificadas 02 pistolas KOBRAK 9, calibre 9mm TecMag. Vinte munições sem cápsula de núcleo de urânio 300 grains em cada arma.
Carregando tabela balística.
Calibrando sistema de telemetria das miras.
Data do sistema: 01/10/2054..
Identificação de retina Ok. Pronto para uso.

- Trasmitir informações do caso ao meu terminal móvel. Agente em diligência pública. Abrindo relatório de ocorrência para o caso .
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I

A jovem mulher de cabelos negros e pele clara solta a mochila, surpresa e assustada, quando a porta do seu quarto de hotel é violentamente aberta. Um homem de pequena estatura entra e aponta-lhe uma pistola.
-Não se mexa, sua puta! Mantenha as mãos aonde eu possa vê-las!
O nome dela é Geovana, e ela mostra as mãos abertas, com suas palmas voltadas para o homem armado. Seu semblante emoldura uma expressão de tristeza e pânico.
-Não tente nada, vagabunda! Vou levá-la, viva ou morta, não me importa. Ganharei o bônus, de qualquer maneira...
Um barulho atrás dele o interrompe e o faz virar. Ele vê um homem de cabelos curtos e grisalhos, aparentando meia idade, vestindo um sobretudo velho cinza.
-Porra, Filipe, o que faz aqui? Também está procurando ela?
-De certa forma, sim - responde o recém-chegado, seu rosto não aparentando nenhuma emoção.
-Você fique quieta – fala o homem armado, apontando ainda a arma para Geovana e se posicionando de forma a manter tanto Geovana quanto Felipe dentro de seu campo de visão- não leve a mal, Filipe, mas cheguei primeiro, e eu é quem vou levá-la e receber minha recompensa.
-Sem problema, filho. Estou indo embora - fala Felipe enquanto se vira lentamente e se afasta pelo corredor.
-Ótimo- replica o baixinho ao voltar sua atenção exclusivamente para Geovana – e você agora vem comigo...
Um estampido seco assusta Geovana. Simultaneamente ela vê a lateral da cabeça do homem armado explodir em sangue e fragmentos de ossos e cérebro. O corpo já sem vida cai para dentro do quarto. Calmamente, aparece à moldura da porta Filipe, empunhando uma velha pistola de onde ainda sai fumaça. Ambos se olham um instante, ela ainda paralisada de pavor, ele impassível diante da cena. Por fim, ele fala.
-Eu vim assim que recebi seu recado. Por pouco eu não chego tarde demais.
Ela finalmente se move, e corre para abraçá-lo, chorando ao apertar seu rosto contra o peito dele.
-Apanhe suas coisas para sairmos daqui. Pode aparecer a polícia ou mais algum agente privado.
-Você o conhecia?
-Sim. Um maldito caçador. Por isso agi desta maneira. Vamos logo.
...

“Relatório de diligência publicamente delegada 9876/2054.
Nome do(a) acusado(a):Geovana Lima Delgado
Acusação: principal suspeita de homicídio qualificado de Fernando Lima Delgado, seu marido, em 30 de setembro último.
Nível de periculosidade: médio-baixo. Porém devo pessoalmente aumentar isso para algo entre 3 e 5, pois acredito na possibilidade de envolvimento de terceiros.
Início da descrição das atividades
Ao iniciar a busca da suspeita, foi definido verificar um crime ocorrido em um hotel na rua das Timbiras, antigo centro comercial da cidade de São Paulo. Há evidências de tal fato estar relacionado com a suspeita”

Perto do corpo coberto com um lençol velho de um dos quartos do hotel, dois policiais fardados, um jovem e o outro aparentando mais idade, conversam tranqüilamente enquanto esperam a chegada dos peritos e técnicos do DML para remoção do corpo.
-Sabe quem era este cara?
-Não me é estranho...
-Era um autônomo. Seu nome era Moriel. Ele era foda. Foi ele quem pegou aquele criminoso em Higienópolis, o Turco Loco.
-Aquele? Então quem o pegou deve ser muito perigoso...
-Moriel era um amador de sorte e oportunista. Ele só matou Turco Loco porque este estava chapado demais para sacar a arma.
Ambos os policiais se voltam para trás para identificar quem falara aquilo. Eles vêem um homem jovem. Este se veste com roupas escuras: botas, calça, jaqueta. Usa um óculos escuro de aparência diferente e luvas negras. Barba por fazer, cabeça raspada.
-Quem é você? Não pode ficar aqui...
Antes que um dos policiais completasse a frase, o jovem mostra um cartão rígido com brasão de armas do ministério da justiça e com os escritos “Departamento de Polícia Federal”, “identificação de agente autônomo”, “código operativo:934-OGUM-01”. Antes que o policial pudesse ler o nome impresso no cartão, o rapaz o guarda. E se aproxima do corpo, agachando-se ao lado do mesmo.
-Ei, aqui é a cena de um crime! Tem provas aí!
-E vocês dois estão pisando nelas. Queiram por favor se afastar.
-Você é muito folgado, cara! Você não é policial, é apenas um agente autônomo. Isso é trabalho para a perícia...
O outro policial puxa o colega pelo braço e o afasta.
-Venha, deixe-o aí. Afinal, não é problema nosso.
-Mas este idiota...
Sussurrando, o policial mais velho admoesta o parceiro enquanto o afasta do agente privado que examina o cadáver.
-Idiota é você! Não viu a identificação do sujeito?
-O fato dele ser um agente de segurança privado não lhe dá o direito...
-Não é isso. É o código do sujeito.
-Nem vi o seu nome...
-Não importa. Este puto aí é conhecido apenas como Ogum.
-E daí?
-Nunca ouviu falar nele? Bem, um conselho: não se meta com ele. Sabe o policial Agenor?
-Aquele que está no hospital em coma cagando por uma sonda?
-Quem você acha que colocou ele lá? É claro que ninguém tem provas, mas Agenor teve a péssima idéia de interferir em um caso que este Ogum estava investigando pouco antes de ele ser encontrado naquele estado.
Apesar de estar concentrado em suas observações, Ogum não deixa de escutar a conversa da dupla de policiais, e se permite um leve sorriso. Através de seus óculos, ele observa o ferimento na cabeça de Moriel. Sob comando ocular, o sistema de seu computador pessoal mede o diâmetro do orifício. Ogum encosta um objeto semelhante a uma caneta próximo ao ferimento.
“Observado ferimento letal de projétil. Orifício de entrada com pouco mais de doze milímetros de diâmetro. Pelas marcas ao redor do ferimento o tiro foi disparado a pouca distância. Os vestígios encontrados foram identificados como pólvora, o que indica o uso de arma de fogo que calça munição que utiliza cápsula e usa como propelente pólvora sem fumaça. Uma arma peculiarmente antiga e não muito comum.”
Ele olha para o suposto local aonde estaria o atirador e faz uma busca visual. Na tela de seu óculos surge um pequeno objeto brilhante de tom dourado. Automaticamente o objeto é marcado na tela e sua imagem ampliada. O agente se ergue e caminha até o objeto, apanhando-o.
“Cartucho de munição de pistola semi-automática calibre .45 ACP. Fabricação nacional. Exame preliminar não mostra vestígios de impressões digitais que possam ser utilizadas para identificação do atirador. Porém, dado o exotismo do mesmo, pode facilitar tal identificação”.
Apesar de não considerar uma evidência objetiva, ele não pode ignorar o fato. Ele pessoalmente conhece alguém que utiliza uma arma antiga que calça este calibre quase obsoleto. Apesar de ser necessário um exame balístico para analisar as marcas no projétil para identificar exatamente de qual arma tal projétil foi disparado, ele tem quase certeza de saber com quem está lidando.
...

Filipe verifica mais uma vez a sua arma, uma velha pistola Colt, uma relíquia construída em aço, algo raro em tempos de armas de percussão eletrônica e construídas em polímeros especiais. Porém ainda bem eficiente, como alguns puderam averiguar da pior maneira. Antes de sair do carro, ele encaixa o carregador de sete munições na pistola e a mantém oculta, porém empunhada e pronta para uso.
-Pode sair, Geovana. Está limpo.
-Aonde estamos?
-Se quisermos sair da cidade, precisamos de uma nova identidade para você.
Ambos saem do carro e se dirigem a uma porta de metal. Filipe olha para cima, em direção ao que ele supõe ser uma câmera de vigilância.
-Abra, Mina. É Felipe. Preciso de sua ajuda.
Nenhuma resposta durante longos segundos. Geovana parece nervosa, olhando em volta e apertando suas mãos no braço esquerdo de Felipe.
A poucas semanas, ela não conceberia estar naquela situação, e principalmente ao lado daquele homem.
A primeira vez que se viram ela era uma mulher casada com um importante empresário e vivia no Megacondomínio Neocity II, localizado na antiga zona leste de São Paulo, um dos cinco Megacondomínios que hoje abrigam empresas e moradias isoladas do caos reinante nas ruas da megalópole paulista. Ele trabalhava como agente de investigação privado e estava em busca de um criminoso foragido de uma prisão do interior do Estado. Ele tinha razões para acreditar que o criminoso estaria na capital.
- Mas o que tem a minha esposa a ver com este caso, senhor agente? -indagara seu marido, Fernando Lima Delgado, a Filipe.
- Não se preocupe, senhor Delgado. Sua esposa não está sendo incriminada. Se não se importa, apenas gostaria de conversar com ela.
- É claro que me importo. Pessoalmente estou cagando para o que acontece nas ruas. Vivemos aqui alheios a esta violência toda e não quero que minha esposa seja afetada, mesmo que indiretamente. Já que minha esposa não tem relação direta alguma com o caso que você investiga, você não tem nada que falar com ela. Fui claro, ou necessito chama um advogado?
Ela lembra-se de assistir a conversa de ambos. Ela estava nervosa, temendo que o investigador falasse algo que ela não gostaria que seu marido soubesse. Felipe olha por cima dos ombros de Delgado e encontra os olhos tristes e suplicantes de Geovana. Por um momento se encaram, e então ele fala:
- Tudo bem, senhor Delgado. Me desculpe o incômodo.
Horas depois ele estaria sozinho em um pequeno bar de Neocitie II, bebendo sozinho no balcão. Enquanto bebia uma dose de Steinhager escutando uma antiga música que escolhera na Jukebox digital, ela surge, ao som de “My one and Only love”.
- “And you appear in all your splendor...” – cantarola ele ao vê-la.
- Desculpe, o que disse?
- É apenas a música. Uma relíquia do século passado. Igual a mim.
- Olha, eu não deveria estar aqui, mas vim lhe agradecer.
- Por que? Por ter aparecido em sua casa e interrompido o sossego dos Novos burgueses com notícias do mundo real?
- Se estava me procurando por causa de Romano, deve saber de nosso relacionamento no passado e o que eu fazia para viver. E poderia usar isso legalmente para obter a informação que quer comigo. Mas não falou nada a Delgado.
- Como disse, sou uma relíquia. Ainda sou tolo o suficiente para acreditar em coisas obsoletas como cavalheirismo, gentileza, atos desinteressados...
- Ainda assim agradeço. Agora devo ir.
- Como vocês se conheceram, digo, você e seu marido...
- Estava fazendo um trabalho no condomínio. Graças a alguns clientes, eu tinha acesso aos Megacondomínios. Eu o conheci por acaso, enquanto fazia compras. Ele nunca soube...
- E foi seu passaporte definitivo para sair da sarjeta.
- Me condena por isso? - pergunta séria, enquanto coloca um cigarro na boca e tenta acendê-lo.
- É uma maneira de ganhar a vida- diz ele, enquanto acende seu cigarro com um isqueiro de aço escovado.
- Acha que meu casamento é uma profissão? Eu gosto dele.
- Acredito- responde, com um pequeno sorriso sarcástico.
- Talvez sua vida seja melhor. Caçando pessoas por dinheiro Já matou alguém?
Ele apenas confirma balançando a cabeça, enquanto termina sua dose.
- .Já se questionou se as pessoas que perseguia eram inocentes ou não? Quem sabe uma das que você matou.
- Seria chato, não? Mas o problema não é meu. Não sou eu quem define quem é suspeito nem sou eu quem julga se são culpados ou inocentes. O poder público é insuficiente para conter a criminalidade, e é por isso que existem as agências e os agentes privados. Para proteger gente como você e seu marido do mundo real, mantendo a sujeira fora destes muros.
- Caçando gente como animais. Acredite, você não pode me julgar. Não tem moral para isso.
O bartender serve outra dose de Stainheger.
- Nunca pensou que um dia você pode ser caçado?
Ambos se encaram. Uma pose de desafio, um olhar perscrutador, um tentando adivinhar o pensamento do outro. Ambos sustentam o olhar por longos segundos.
II
A porta metálica abre suavemente. Geovana é desperta de suas lembranças. Filipe a introduz no ambiente escuro. A porta fecha atrás de ambos. À frente deles, um vidro separa-os de uma mulher sentada atrás de um console de computador. Ela tem cabelos curtos de cor vermelha e veste uma jaqueta de couro e uma saia minúscula, deixando um par de belas pernas à mostra. Ele também faz questão de deixar à mostra uma arma sobre a mesa do console, bem ao alcance das mãos. Mantendo sua visão na tela do console, ela inicia o diálogo.
- Ora, ora, o que um velho e respeitável servidor da lei quer com uma conhecida despachante? Sabe que sou profissional e meus clientes tem direito a sigilo.
- É com isso que eu conto. Acho que é hora de eu cobrar aqueles favores que você vive dizendo que está me devendo.
Na tela que Mina observa ela capturara a imagem oriunda da camera de segurança para identificar seus clientes. Apesar de conhecer Filipe, Mira gosta de saber com quem está lidando, e solicitara ao computador a identificação da acompanhante de seu conhecido. E enquanto ela conversa com Filipe, as informações solicitadas chegam em sua tela. Mantendo a cabeça inclinada, Mina levanta os olhos e encara Geovana.
-Devo imaginar que queira algo para a sua amiga, aí.
-Exatamente. Nova identidade, com passe livre.
-Você sabe cobrar bem. Tem idéia do risco?
-Isso nunca foi problema pra você no passado. Em boa parte por minha causa.
-Não precisa me lembrar, coroa. Não faz o seu tipo.
-Você provavelmente já sabe a encrenca na qual ela está metida. E sabe que preciso tirá-la da cidade o mais rápido possível.
-Já entendi a situação. Só não entendi o porquê de você estar ajudando ela.
-Vai nos ajudar ou não?
-Pedindo assim com jeitinho...
Mina tecla freneticamente, organizando os dados e montando uma nova identidade para Geovana.
-Ela não vai me perguntar nada?- sussura Geovana para Filipe.
-Tudo que preciso está aqui em meu computador. Nome, idade, coisas que você não gostaria que ninguém soubesse...Alguma preferência por nome? Espero que não. Dado a urgência, não tem como inventar uma nova identidade e inserí-la na base de dados do governo. Leva tempo. Em situações como a sua, preciso encontrar uma identidade “disponível” que se encaixe em seu perfil.
- Você tem alguma disponível?
- Não, chefinho. Tenho poucas comigo, pois não quero ser pega com as calcinhas na mão. Normalmente eu crio uma e “planto” na base de dados, legitimando-a . Como eu disse, leva tempo. Em casos de urgência, como o de vocês, preciso acessar a base de dados de uns “hackers”que possuem estas identidades “disponíveis”. Você sabe: pessoas que morreram mas que por falha do sistema estão “vivas” virtualmente, pessoas dadas por “desaparecidas” durante os anos mais pesados do governo, identidades “apagadas” pelo sistema de recolocação de testemunhas...bem, mas obter estas informações custa dinheiro...
Como que respondendo a “indireta”, Geovana tira de sua bolsa alguns cartões.
- Tenho crédito disponível, e também alguns chipcash...
- Você enlouqueceu? Se eu colocar esta sua identificação em meu sistema, em poucos segundos estaremos cercados de policiais. E estes Chipcash, de quem são?
- Estavam no cofre de meu marido...
- Que maravilha. Com certeza a polícia também está rastreando estas verdinhas. Posso até segurar isso comigo, mas a partir do momento que eu tentar colocar estas notinhas em circulação, o pessoal vai me enquadrar bonitinho. Comigo só dinheiro de verdade. Não tem complicação.
- Você não tem como converter?- pergunta Filipe.
- Não faço mais isso, coroa, desde aquela vez. Foi você mesmo quem me aconselhou...
- Me lembro...tem como você ir adiantando o processo até conseguirmos o dinheiro?
Mina respira fundo, olha pros lados e ergue os braços, em resignação.
-Só por que é pra você, meu querido. Mas não sacaneie, nem traga encrenca para cá. Vou ter que usar uns créditos que eu tenho aqui para conseguir esta identidade.
-Ótimo, linda. Estamos saindo. Assim que conseguirmos a grana, voltaremos para pegar os documentos.
Uma informação que surge em uma das janelas do console de Mina chama-lhe a atenção. Ela detém a saída de Filipe.
-Só mais uma coisa, Filipe. Acabei de ver aqui no sistema algo que talvez você não goste...
Filipe se detém à porta e vira o rosto para Mina.
-O que houve?
-Bem, estou vendo que seu velho parceiro está com o caso. Seja rápido, meu velho, senão eu vou acabar no prejuízo. E você também.
Apesar de não aparentar, Filipe sente algo muito parecido com medo. Ele se afasta e a porta se fecha. Ao caminho do carro, Geovana percebe a mudança sutil de comportamento de seu parceiro.
- De quem ela estava falando?
- Nada que deva preocupá-la. Olha, não devemos nos separar. Iremos a um lugar que conheço que poderemos obter dinheiro em espécie. Não é prático e nem visto com bons olhos andar com dinheiro em espécie, mas nestas circunstâncias, é a melhor maneira...
- De quem ela estava falando?- insiste, de forma incisiva.
Ao entrarem no carro, ele resolve falar.
- Está falando de um agente que já trabalhou comigo quando trabalhava na Agencia de Segurança Privada Nemesis. Hoje ele trabalha por conta própria.
- Alguém como aquele que você matou no hotel do centro?
- Antes fosse. Não quero assustá-la, mas a última coisa que eu gostaria nessa vida era de ter ele em meus calcanhares.
- Você também é um agente treinado. Pode cuidar dele como fez com aquele outro. Além disso, vocês já foram parceiros. Será que não conta?
- Acredite, depois do que vi uma vez, percebi que não poderia com ele se estivéssemos em lados opostos. Ele é um bom investigador, e um assassino frio. Devemos nos apressar. Não quero cruzar com ele em hipótese alguma.
- Você está nisso por minha causa. Se quiser, me deixe e siga sua vida. Com sorte, ninguém vai ligá-lo ao assassinato daquele agente.
- Shhh. Não fale bobagem. Logo, chegaremos em um lugar aonde obteremos o dinheiro e voltaremos para Mina e apanharemos seus novos documentos, e até o final do dia, estaremos fora da cidade.

Filipe se lembra de como começou nesta profissão. Ainda jovem, entrara para a Polícia Civil do Estado de São Paulo. Atuara durante muitos anos como investigador, porém se decepcionara com a corrupção do sistema. Durante o regime de exceção implantado nos anos trinta, o governo central determinou que parte das atividades de segurança pública passassem para a iniciativa privada. Surgiram agências especializadas em oferecer serviços de segurança para órgãos do governo e para pessoas que preferiam pagar para garantir sua segurança. Durante esta transição, ele acabara indo trabalhar em uma empresa de segurança privada, a Nemesis. Nos últimos anos de atividade naquela empresa, ele trabalhou com um jovem agente. Filipe não sabia muito a respeito dele. Sabia apenas que ele entrara na agência exercendo função de apoio técnico, mas que depois se tornou agente de campo. Haviam histórias a respeito de um fato ocorrido antes envolvendo o jovem, mas ele não levava a sério. Não até aquele dia.
Ambos estavam encarregados de encontrar um grupo oriundo de uma célula terrorista. Normalmente terrorismo urbano era assunto da Polícia Federal e da ABIN, mas este grupo tinha uma mulher com mandado de prisão expedido por crime de homicídio não enquadrado no código de segurança nacional.
Filipe havia encontrado a pista deles antes dos órgãos de repressão do governo, e solicitara o apoio de seu parceiro. Enquanto ele não chegava, Filipe seguira até o “aparelho” aonde estavam escondidos. Para ele só interessava capturar a mulher viva. Os demais não eram problema dele. Mas seriam um problema, claro.
Enquanto estava de campana diante do velho prédio em Perdizes, um rapaz do grupo desconfiou da presença dele e avisou aos outros, que resolveram fugir. Percebendo a movimentação, Filipe tenta impedir. Por um instante, ele tem um dos componentes sob sua mira. Porém ele hesita, pois é apenas uma adolescente. Ambos se olham nos olhos, e Filipe não puxa o gatilho.
Neste exato momento chega Ogum. A adolescente tenta sacar sua arma. Filipe se surpreende quando surgem duas pistolas nas mãos de seu parceiro, que disparam rajadas curtas. A moça é atingida. Os demais componentes do grupo iniciam um tiroteio, mas Ogum é extremamente rápido e preciso, atingindo dois jovens, um deles pelas costas. Um tiro praticamente arranca a perna esquerda da suspeita que eles procuram, explodindo sua rótula. Ela cai no chão, gritando de dor. Ogum se aproxima dela, e passa ao lado a jovem que ele atingira primeiro. Ele pára e encara o olhar suplicante da menina ferida. E simplesmente atira nela, matando-a .
Assistindo a tudo isso, sem esboçar reação, estava Filipe, ainda empunhando sua velha pistola. Ogum desarma a suspeita, chutando a arma para longe e encostando sua pistola na cabeça da mulher.
- Me mate, seu filho da puta!
Ele simplesmente puxa o gatilho. A cabeça da mulher explode em pedaços de osso e cérebro.
Horas depois, Filipe está diante do diretor executivo da Nemesis, Issac Dayan. Ogum relatara exatamente o que ocorrera.
- Aquele rapaz é um assassino frio. Não houve chance para aqueles jovens!
- “Aqueles jovens” eram acusados de terrorismo pelo governo. Eles reagiram e nosso agente foi bastante eficiente. Ao contrário de você.
- Ele matou aquela moça. Ela não deveria ter dezoito anos...
- E você nunca faria isso, não? Sei que você foi um bom policial, Filipe, mas aqui é uma empresa, e precisamos ser eficientes para darmos lucro. Aqui não é a polícia. E Ogum agiu a contento: a suspeita foi pega, porém resistiu a prisão e acabou sendo morta, junto com seus colegas.
- Você corrobora o que aquele psicopata fez?
- “Aquele psicopata” tem se revelado meu melhor agente. Sem querer ofender, mas seus métodos se tornaram pouco eficientes para estes tempos, Filipe.
- O que quer dizer? Que sou um “item obsoleto”? Que não presto mais para o serviço?
- Bem, você passará por avaliação psicológica e por uma reciclagem. Você foi um dos primeiros agentes de nossa empresa, e nunca teve treinamento aqui, pois por ser um ex-policial, presumimos que não haveria necessidade. Mas temos que reavaliar sua atuação aqui...
- Vá se foder, Issac!
Depois daquele episódio, ele passou a atuar como autônomo, sem vínculo direto com agências de segurança. Ele soube que Ogum fizera o mesmo, apesar de eventualmente ainda prestar serviço a Nemesis.

III


Ogum quase chega a sentir a presença dos dois que persegue naquele apartamento aonde morara seu antigo parceiro. Ele sabe que ambos estiveram juntos ali a algum tempo, porém é óbvio que ele não a traria aqui, não nestas circunstâncias. Apesar de oficialmente ele não estar sendo procurado, ele é um detetive, e sabe que um bom investigador ligaria os pontos e poderia procurar ali. Ogum está ali apenas buscando evidências.
Tudo que encontra é vestígios de que o ocupante do apartamento saíra às pressas, levando apenas o essencial. Enfim, ele apenas possuía o essencial, mesmo. Verificando os registros das comunicações efetuadas e recebidas através do terminal doméstico multifunção – um nome pomposo ao sistema informatizado multimídia que substituíra o convencional e obliterado telefone – ele descobre uma ligação recebida horas atrás justamente do apartamento de Geovana, pouco depois da hora estimada do crime. Testemunhas no hotel descreveram a presença de pessoas cuja descrição bate com a de Geovana e de Filipe. Para ele, não há dúvidas de que ambos estão juntos. Antes de sair, Filipe não executou nenhuma comunicação a partir de seu terminal. Ele esperaria, com baixa expectativa, encontrar alguma evidência do próximo passo de sua caça. Mas muito do que Ogum aprendera da arte da investigação e da dedução ele deve a seu antigo colega. Ele sabe qual o provável próximo passo.

Filipe estaciona o seu veículo nos fundos do prédio aonde funciona um nightclub. Na entrada do mesmo, ele fala com os seguranças.
- Preciso falar com Cooler Walace.
- Não há ninguém com este nome aqui - responde o pouco amigável segurança.
- Eu preciso fazer negócios com ele. Não sou policial, se é o que pensa. Estamos precisando dos serviços de Walace com certa urgência, por isso não ligamos antes marcando hora.
- Tudo é urgente.
- Mas algumas urgências são mais urgentes que outras. Diga a ele que são negócios
Filipe coloca um chipcash no bolso do casacão do segurança.
- Entre misturado aos outros convidados e pergunte ao barman do balcão azul.
- Obrigado.
Filipe e Geovana entram na boate. Um som eletrônico rítmico e alucinógeno, inaudível do lado externo do prédio devido a moderna isolação acústica, invade seus ouvidos. Uma multidão de jovens dançam alucinados. Eles se dirigem a um ambiente mais tranquilo, aonde algumas pessoas bebem e fumam próximos a um balcão de material sintético translúcido. Mulheres nuas com o corpo pintado servem os convidados VIP. O acesso é restrito.
- Fique por aqui, Geovana. Me dê seu cartão e os chipcash que tiver. Vou falar com Walace.
Geovana se lembra que freqüentara muito estes ambientes antes de casar e morar em definitivo dentro de um Megacondomínio. Ela sabia que só os que podiam pagar tinham acesso as vantagens e a segurança proporcionadas pelo avanço tecnológico, porém restritos ao perímetro das chamadas Neocities. E ela estava disposta a pagar qualquer preço para acessar aquele mundo.

...

Após aquela noite no bar, Filipe chegou no cubículo aonde morava e ficou lembrando das palavras da jovem Geovana. E da própria Geovana. Ela não falou nada sobre Romano. Ele fazia parte de uma passado que ela queria apagar. Mas as coisas que ela falou...será que era isso que o perturbava, ou aqueles olhos de jade, aquela boca carnuda, aquele perfume. Demorou a dormir naquela noite. E nas seguintes.
Dias depois daquilo, Filipe procurara esquecer dela. Em casa, escutando uma velha gravação de Branford Marsalis, alguém aciona o porteiro automático.
- Quem é? - pergunta em voz alta ao sistema viva-voz, enquanto tira sua velha pistola da gaveta, carrega-a e puxa seu ferrolho, deixando-a pronta para uso.
- Aqui é Geovana. Preciso falar com você.
Autorizando sua entrada, em poucos minutos ela sobe e entra em seu apartamento. Ele está surpreso pela presença dela em seu lar. Ele guarda a pistola em sua cintura.
- O que houve?
Geovana demora um pouco a falar, por fim, responde, baixinho:
- Romano me procurou...
- Como é? Quando? Onde ele está?
- Ele...me procurou, querendo que eu conseguisse dinheiro para ele. Disse que se eu não o encontrasse ele contaria tudo a meu marido...
- Onde ele está?
- “Onde ele está”. É só com ele que se importa, com ele e a sua maldita “recompensa”? Quero que ele se foda! Ah, foi um erro eu vir aqui.
Ela se dirige a porta, mas Filipe a segura pelo braço.
-Desculpe. Pensei que você havia vindo para me informar sobre ele. Calma, está tudo bem.
Ela começa a chorar.
-Não, não está tudo bem! Você tinha razão! Pensei que podia ignorar o meu passado, mas infelizmente aquele maldito voltou para me aterrorizar. Desde aquela época que ele me explora. Pegava quase todo o meu dinheiro, me batia, assustava meus clientes...depois que ele foi preso por assassinato tudo deu certo para mim. E agora...
-Porque está falando isso para mim?
-Você é o único a quem posso confiar a minha história.
Ele a convida para sentar e serve-lhe uma bebida. Por um instante ele esquece a sua função e apenas escuta o desabafo da jovem. As lágrimas borram a maquiagem. Ela parece mais bonita , assim.
- Que música é essa que está tocando?
- É outra velharia. É de um antigo músico inglês chamado Sting.
- É bonita. Do que ela fala?
- De uma mulher chamada Roxane. Acho que ela era prostituta, e ele diz na música que ela não precisa mais fazer aquilo.
- Será que ela o escutou?
- Quem sabe?
Os dois riem um pouco. Ela está mais relaxada. Como é bonita, pensa Filipe.



IV

Cooler Walace, um homem de aparência estranha. Alto, branco, olhos azuis claros, cabelos descoloridos e espetados, parece uma figura alienígena. De certa forma é, já que é holandês de nascença. Oficialmente ele é apenas um empresário da noite com negócios legais, mas ele trabalha com venda de equipamentos controlados, desde drogas ilegais a armas, além de chipcashs frios e câmbio de moeda virtual para dinheiro em espécie, atividade restrita ao banco central. Ele recebe Filipe, que explica de forma breve a sua necessidade. Oferece uma bebida, gentilmente negada.
-Não imagino o porquê de você fazer negócios comigo, senhor Scott. Já o conheço a anos e não me lembro de você necessitar de meus serviços.
- Digamos que não gosto muito da burocracia do Banco Central. Pode me conseguir o dinheiro?
- Sim. Algum em espécie, outra parte em chippcash avulso.
Enquanto Walace insere os cartões em um leitor e calcula os créditos, ele aproveita para abrir uma maleta de material rígido e mostrar seu conteúdo a Filipe: uma pistola e seus respectivos acessórios.
- Não quer uma arma, também? Quer dar uma olhada? Veja esta pistola. Fabricação israelense, uma legítima Kobrak 9. Capacidade relativamente pequena, vinte cartuchos. Mas é uma arma de precisão e poder de parada, percussão eletrônica ou opcional mecânica, cadência e mira controlada por computador. Sei que a maioria prefere uma pistola calibre .2222 Express com capacidade de 30 a 40 munições ou uma subcartucheira automática, mas esta pistola é para profissionais...
Por dentro ele concorda. Infelizmente, pois ele sabe que é o tipo de arma que Ogum utiliza. Ele sempre porta duas, com munição sem cápsula e projéteis de núcleo de urânio gasto e revestimento de polímero ultraduro.
- Ainda prefiro minha velha Colt.
- Tudo bem. Aguarde um pouco que estou providenciando seu dinheiro.
...

Felipe estava perturbado, confuso. Ambos se encontraram novamente umas duas vezes,. Será que aquela mulher realmente o queria ou estava querendo usá-lo para se livrar de Romano? Apesar de em momento algum ela pedir explicitamente isso, ela deixou bem claro que Romano não a deixaria em paz, e que seu maior desejo naquele momento seria que Romano saísse de sua vida. De um jeito, ou de outro De qualquer maneira, era sua tarefa apanhar Romano. Vivo ou morto.
Com as informações obtidas com Geovana, Filipe chega a um pequeno hotel na rua do Arrouche. Lá, obtém a confirmação de que Romano estaria hospedado ali. Ele vigiara a entrada do hotel no bar em frente. Quando Romano chega, ele levanta-se e se aproxima discretamente. Apesar disso, Romano acaba brigando com Filipe, desarmando-o e o espancando bastante.
- Foi aquela vagabunda que o mandou, não foi?
- Vá se foder!
- Vá se foder você! Você e aquela puta! Ela vai me pagar!
Romano conseguira acesso ao condomínio com uma identificação que tirara de Geovana, e invade a residência dela. Com a arma apontada para Geovana e seu marido, Romano conta toda a verdade.
-O que você acha que esta vaca fazia antes de casar com você? Ela era puta. Era minha puta! Dava para qualquer um que pagasse. E ela era boa no assunto, satisfação garantida do cliente. Todo dinheiro que ela ganhava dividia comigo. Ah, não sabia? Tem muito mais...
-Solte a arma, Romano- Filipe entra e aponta sua pistola para o criminoso.
-Ah, outro idiota que esta vaca enganou. O que foi que ela disse? Que eu a explorava, que a espancava, e pediu para que você me matasse? Como vocês são idiotas! Mas eu vou fazer um favor a vocês.
Na confusão, Filipe descarregara os sete tiros de sua pistola em Romano. Ele segura sua Colt, com o ferrolho aberto expondo o cano fumegante. Geovana chora. Seu marido fica atônito.
Após o fim do caso Romano, Filipe passou umas duas semanas sem ver Geovana. E ele achava que nunca mais a veria. Não obstante, uma noite ela aparece em seu apartamento. Ele a recebe, e ela o abraça, chorando.
- Meu deus, minha vida virou um inferno!
- O que houve?
- Depois daquele episódio, meu marido me odeia, me despreza! Ele me humilha, me espanca, quer me expulsar de casa, me tirar tudo! Não é justo!
- Ninguém disse que teria que ser justo.
- Mas eu não mereço!
- Não é questão de merecer. Isso não importa.
Ele apenas a abraça. É apenas uma questão de tempo para que estejam se beijando. Filipe sabe que está se envolvendo perigosamente com ela, mas não consegue evitar. Ele sente uma necessidade quase patológica de protegê-la, de consolá-la, de amá-la.
...
Ogum se identifica na entrada do nigthclub e se mistura a multidão. Através do seu visor, informações oriundas de seu computador se sobrepõem a imagem de uma multidão de pessoas dançando. Ele procura nessa multidão o rosto de Geovana. Ou de Filipe. Ele sabe que Cooler Walace fornece serviço de câmbio ilegal, e Ogum também sabe que a primeira coisa que provavelmente Filipe varia seria obter dinheiro não rastreável e documentação falsa. Ambas as coisas ele poderia conseguir aqui. Ou pelo menos uma delas, caso não confie o suficiente em Walace. Por precaução, ele solicita ao seu computador informações adicionais sobre o prédio.
Alheia a isso, Geovana pede um refrigerante no balcão e procura se manter fora da vista. Ela nota dois homens conversando entre si e olhando para era. Serão policiais? Agentes privados? Um deles seria Ogum? Ela tenta não olhar para eles e se afasta daquele local com sua bebida. Ela nota que os dois a perseguem com o olhar. Ela segue em direção a sala VIP aonde está Filipe.
Fatalmente, seu rosto surge na tela sobreposta nas lentes do visor de Ogum. Ele a identifica positivamente e se aproxima da forma mais discreta possível, olhando ao redor para verificar se Filipe estaria por perto. Não vê Filipe, mas sua percepção treinada nota a aproximação de dois homens em direção a Geovana. Imediatamente ele grava a imagem de ambos e ordena ao seu computador, através de um comando ocular, a tentar identificar os dois. Enquanto aguarda o retorno de sua consulta, ele se aproxima cada vez mais de sua presa, sem deixar de observar a dupla ainda não identificada. Geovana olha diretamente para Ogum, mas ele não está olhando diretamente para ela, que esta não percebe o perigo.
A porta de vidro desliza silenciosamente, deixando Filipe sair da sala VIP. Geovana sorri, aliviada. Ele retribui levemente o sorriso, mas este some de seu rosto. Ele vira Ogum a menos de três metros dela. E este também vira Felipe.
- Sai daí, Geovana!- grita um desesperado Felipe
Os dois homens notam a confusão e sacam armas e apontam para os três.
- Todo mundo quieto! Ela vem conosco! E quem se meter leva bala!
Um átimo de tempo paradoxalmente longo. Ninguém esboça reação. Os dois se aproximam de Geovana, mas Ogum está entre eles e ela.
Em um pequeno e quase imperceptível movimento da cabeça, ele identifica os potenciais perigos ao seu redor e os classifica por nível de ameaça imediata, sendo marcados no visor. Os dois homens que chegam- que ele identifica como seguranças a serviço da casa- mais um outro segurança dando cobertura a vinte metros na sua posição de sete horas, outro em sua posição de três horas a oito metros, um quinto em uma passarela três metros acima de sua cabeça e dois metros a frente. Além de Geovana e Filipe.
- Muito bem, seu idiota. Sai da frente...
“Prioridade dos alvos definida”.
Num movimento rápido, a mão esquerda de Ogum pega a mão do segurança que está segurando a arma e a torce, quebrando-a . Num único movimento, ele saca outra pistola com a mão direita e a golpeia contra o crânio do segurança, que grita de dor antes de perder os sentidos, com um pulso quebrado e uma concussão. A arma sacada é apontada para o segundo alvo.
O outro segurança esboça uma reação. Tenta atirar, mas seu colega bloqueia sua posição. Ao ver que será alvejado, ele não se importa e puxa o gatilho, acertando o seu parceiro. Ogum dispara uma rajada curta de três tiros, acertando o segurança na altura do peito, matando-o instantaneamente.
Antes dos dois corpos caírem, Ogum saca sua outra pistola com sua mão esquerda e usa ambas. Girando o corpo, ele aponta e atinge com precisão o alvo atrás dele com a pistola da mão direita, enquanto atinge o outro alvo com a outra pistola. Completando o giro, ele levanta ambas as mãos e atira para cima, acertando o último alvo, que cai da passarela, morto. Seus dois últimos alvos conseguiram atirar, porém um único tiro o acertou, mas foi detido pelo colete de cerâmica e Tweedraw que estava usando sob a roupa.
Atônita, Geovana é puxada por Felipe para trás da porta de vidro. Ela não consegue deixar de olhar para trás. Ogum se volta na direção de seus principais alvos e aponta suas armas.
-Não olhe para trás, e corra como o diabo!
Ambos conseguem sair do campo de visào de Ogum pouco antes de uma rajada estilhaçar a porta de vidro. A confusão é geral. O pandemônio gerado pelo tiroteio atrapalha o movimento de Ogum em direção a seus alvos.
-Meu Deus, ele matou quatro homens sem hesitar!
-Infelizmente para eles, foi nossa sorte, pois nos deu tempo de fugir. Não pare, agora.

Nos corredores internos, Filipe corre, puxando Geovana pelo braço. Diante de um alarme de incêndio, Filipe o aciona.
- Por que fez isso?
- Para aumentar a confusão e para destravar todas as portas.
Passando pela sala VIP, Ogum se detém por segundos, diante das diversas portas por onde poderiam ter passado os dois que persegue. Surge no monitor de seu óculos a imagem da planta do prédio, e ele rapidamente analisa as prováveis rotas de fuga. Em poucos segundos, ele toma uma decisão e segue por uma das portas.
Geovana e Filipa passam pela cozinha e pela despensa e alcançam a porta dos fundos. Passando por ela, eles alcançam o carro e entram.
-Liga, porra, liga!
Mal liga o carro, ele acelera-o. Antes de chegar a esquina, Filipe vê pelo retrovisor que Ogum acabara de sair do nightclub e se coloca no meio do beco, apontando a arma para a traseira do carro em movimento.
-Abaixe-se, Geovana! - grita Filipe, forçando a cabeça da jovem para baixo e se abaixando também.
Ogum dispara dois tiros, que atravessam o material translúcido que compõem o pára-brisa traseiro e dianteiro do veículo, os projéteis passando por onde estavam a poucos instantes as cabeças de Geovana e Filipe. Mesmo abaixado, Filipe consegue virar a esquina, saindo da linha de tiro.
- MeuDeusmeuDeusmeuDeus....
- Calma, acabou. Vamos sair daqui rápido, pegar os documentos e fugir da cidade.
Ela está chorando, desesperada. Filipe tenta consolá-la.
- Escapamos dele, está bem?
- Nós poderíamos ter morrido...ele é um assassino, muito pior que o Romano, pior que Fernando...

As coisas pioraram para Geovana. O fato saiu nos noticiários on-line e sua história se tornou pública. Seu marido queria o divórcio, e queria deixá-la na miséria. A opinião pública dos habitantes dos Megacondomínios acabaram convertendo Geovana em uma vilã inescrupulosa. Ao saber que ela estava encontrando Filipe, o marido foi tomado por um acesso de fúria, espancando-a.
-Separe-se dele. Viva comigo.
-Preciso sair disso com um pouco de dignidade...
Dias depois, ele recebe uma chamada de Geovana. Ela está em pânico.
- Meu Deus, Filipe, ele tentou me matar...
- Calma, querida, saia de casa e vamos registrar queixa.
- Eu...eu o matei.
- O que!? Como...
- Ele bebeu demais e estava discutindo. Começou a me bater, e de repente ele apareceu com uma pistola e encostou em minha cabeça. Implorei, mas ele disse que me mataria de qualquer jeito! Aí acabei me agarrando com ele e a arma disparou...
- Olha, não fale mais nada. Saia daí e vá para um hotel na rua das Timbiras, perto da Avenida São João. Alugue um quarto. Eu encontro você em uma hora. Não fale com ninguém.
- Oh, meu Deus...
- Calma, linda. Tudo dará certo. Eu prometo.

V
-Você matou os meus seguranças e causou um pandemônio em meu estabelecimento. Eu sei meus direitos, conheço as leis deste país Deveriam prendê-lo!
Os funcionários tentam limpar a bagunça. Os corpos dos seguranças mortos são recolhidos. Walace parece furioso, e Ogum se aproxima dele.
-Com todo o respeito, Walace, você não saberia o que é lei nem que enviassem o código civil e penal no seu rabo gringo. Você dirige todo tipo de negócio ilegal neste muquifo. Seus seguranças atrapalharam uma prisão em andamento. E eu nào gosto que se metam em meu caminho.
- Vou processá-lo...
Ogum saca uma de suas pistolas e aponta para a cabeça branca de Walace. Os outros seguranças sacam suas armas.
- Entre na fila. Agora me diga o que você forneceu a Filipe. Dinheiro, documentos, armas?
- Não traio a confiança de meus clientes.
- Prefere lidar comigo ou com a polícia? Sei que comprou metade da polícia metropolitana, mas a Federal e a Abin vai adorar saber sobre seu estoque de armas militares escondido no Bráss.
- Vá se foder!
Ogum desarma a pistola, produzindo um zumbido eletrônico característico, que Walace conhece muito bem.
- Tudo que ele levou foi dinheiro não rastreável. Nada de armas, documentos falsos, nem drogas.
- Você aprendeu português bem rápido. Walace. E mande seus seguranças se acalmarem, senão sua rotatividade de pessoal vai dobrar.
- Senhores, calma. Deixem-no ir.
Ogum não perde mais tempo naquele lugar. A pouca informação que conseguiu é suficiente. Ele sabe aqueles a quem caça precisa de documentos, e Filipe conhece os locais onde conseguir. E Ogum também conhece.

Filipe começa a lembrar o que ocorrera a poucas horas. A caminho do hotel, ele acompanhara as notícias. A imprensa estava acusando Geovana de planejar o homicídio de seu marido. Inicialmente ele pensara em conseguir um bom advogado para ela alegando legítima defesa, mas estavam crucificando-a . Logo após o crime, fora expedido um mandado de prisão e publicamente delegado, o que significa que qualquer agente poderia tentar pegá-la. E sabia que, por crime de homicídio qualificado, os agentes não costumavam pegar seus alvos vivos. A situação perdeu totalmente o controle quando ele viu o agente Moriel prestes a prender ou matar Geovana.
- Muito bem, bonitão, consegui uma identificação decente para sua musa aí.
Mina desperta Filipe de seus pensamentos. Ela entrega os cartões a Filipe.
- Veronica Mendes. Nome bonito.
- O cabelo, nem tanto. Ela precisa cortá-los bem curto e pintá-los de ruivo. Achei uma idéia útil ela mudar o visual. Se quiser, ela pode usar meu banheiro. Tenho tinta e máquina. Fiquem a vontade. Preciso sair.
- Você vai sair? Deixar isso aqui sozinho?
- O que vocês podem fazer? Roubar meus computadores? Acho que não .Vou visitar uns amigos. Não se preocupe, pois duvido que mais alguém me procure hoje. Normalmente meus clientes marcam hora e solicitam seus pedidos à longa distância. É mais seguro. Só você é quem gosta de fazer as coisas à moda antiga.
- Aqui está seu dinheiro. E mais um pouco.
- Ei, deixa disso. Apenas cobrei porque precisava pagar pela nova identidade.
- Pegue assim mesmo. Eu sempre estive lhe devendo, e não é isso que vai quitar minha dívida contigo.
Mina guarda os chipcash que Filipe lhe dera e veste sua jaqueta.
- Coroa, tu tem certeza do que você tá fazendo? Quer dizer, ela...você está correndo um sério risco por causa dela. Está jogando tudo pro alto.
- Eu gosto dela.
- Vale a pena? Quer dizer, não é da minha conta...
- Tudo bem. Talvez eu estivesse implorando por algo que mudasse a minha vida, sei lá...mas deixa. Você não tem que ouvir isso, e não temos tempo. Vou levá-la para o banheiro.
Filipe sai do escritório e leva Geovana até o banheiro. Mina apanha uma pistola e a coloca no cós de sua saia. Filipe volta e Mina se dirige a porta em passos lentos. Antes de sair, ela ainda pergunta:
- Não o verei mais, não?
- Provavelmente não, mesmo que eu tenha sucesso.
- Não sei como dizer isso, mas...obrigado por tudo.
- Pelo quê? Nunca consegui tirar você desta sujeira.
- Acredite, eu consigo me virar muito bem com este meu pequeno empreendimento, em parte graças a sua ajuda.
- Esta vida vai acabar contigo, um dia.
- Como esta sua vida acabou contigo? Bem, temos que lidar com isso da melhor maneira possível.
- Bem, então...adeus. E obrigado.
Sem olhar para trás, Mina apenas responde.
- Adeus, pai.
A porta de metal desliza e fecha. Um sentimento de tristeza e melancolia se abatem sobre o velho detetive. Ele se pergunta o que conseguira nestas décadas lidando com a escória da sociedade. Uma sociedade que um dia ele ingenuamente jurou servir e que ironicamente o colocou paulatinamente à margem de uma nova ordem. E agora se vira contra ele. E o que ganhou em troca? Uma família fragmentada, quase nenhum amigo, poucas posses.
Mas ele não se permite pensar nestas coisas. A prioridade é se manter vivo. Ele sabe que Ogum pode estar a caminho. Possa ser que ele demore a encontrar este lugar, contudo Filipe Não se nutre de esperanças pouco substanciosas, pois sabe quão competente seu antigo parceiro pode ser em uma investigação.
No banheiro, Geovana corta seus cabelos bem curtos e os pinta de vermelho. A tinta que Mina deixara no banheiro age rapidamente sem deixar manchas ou cheiro. Filipe entra devagar no banheiro. Inicialmente ela o olha através do espelho. Ele se aproxima por trás. Ela se vira. Ambos estão com uma expressão triste estampada em seus rostos. Sem dizer palavra alguma, ele delicadamente afasta a toalha na qual ela está enrolada, expondo seu corpo nu. Sem palavra alguma, os dois se beijam. E choram. E fazem sexo como se soubessem que seria a última vez que estariam juntos.
Poucas horas depois, eles já estão vestidos e saem do “escritório” de Mina. Filipe consegue outro carro, abandonando o que usara até o momento.
- Agora faremos o seguinte: com esta sua nova identidade, conseguiremos sair da região metropolitana, e em seguida do Estado. Até que seja expedido um mandado federal, estaremos livres dos agentes autônomos. E com sorte estaremos fora do país antes disso. Com o dinheiro que conseguimos obter e mais umas economias que tenho, dá pra nos virarmos.
- E como sairemos da cidade?
- De carro chama muito a atenção. Vamos pegar o monotrilho que nos levará até Barueri, e de lá pegaremos um transporte aéreo para fora do Estado. Aí fica mais fácil.
- Mas você não tem identidade falsa...
- Oficialmente não estou sendo procurado. Verifiquei os registros do Departamento de Segurança, e ainda estou limpo.
- Mas Ogum o viu...
- Eu conheço aquele puto. Ele não vai relatar isso, pois é a pista mais quente que possui, e ele não vai querer que ninguém, polícia ou outro agente, nos pegue primeiro.
Ela põe sua mão sobre a mão de Filipe.
- Quero dizer-te uma coisa.
- Que foi?
- Pode parecer até ridículo ou irrelevante diante destas circunstâncias, mas queria que você soubesse que eu não o estou usando. Eu até gostava um pouco de meu marido, mas você foi o único que me tratou como gente, mesmo sabendo o que fiz, no passado.
O veículo passa por uma guarita. Filipe pára diante de um terminal automático e introduz as identificações. Em segundos, o sistema autoriza a entrada de ambos no ambiente restrito de Neocitie III. Filipe ainda se impressiona como se ergueram estas estruturas no espaço de poucos anos. Quando as primeiras famílias foram desalojadas para a construção do segundo Megacondomínio, poucas vozes se levantaram em defesa delas. O governo autoritário controlava o acesso as informações, e eram apenas divulgados os benefícios trazidos pelo empreendimento. E os maiores beneficiados estavam agradecidos pela chance de se isolar dos problemas da Megalópole, principalmente a crescente violência urbana, para a qual a polícia se tornara inútil.
- Sabia que aqui era um conjunto de apartamentos populares, a umas décadas atrás?
- Não consigo me lembrar de nada antes desta construção.
- Não é do seu tempo. Eu assisti ao nascimento disso.
- Dá pra pensar que sempre foi assim.
- No meu tempo já havia muita violência e exclusão social, mas não eram nada comparado com o que ocorre hoje.
- Você sente saudades desta época?
- Como todo velho rabugento que se preze...pelo menos ainda havia música decente naqueles tempos.
- As músicas que você escuta são bonitas.
- Se você não gostasse de mim, diria que tens um ótimo gosto.
Ela ri. Ele percebe que faz tempo que não a vira sorrir. Lentamente ele conduz o carro pelas ruas vazias, porém sempre vigiadas. Seu destino: a estação do sistema de monotrilho.
Após deixarem o veículo no estacionamento e se identificarem no atendimento automático, eles acessam a plataforma. Em poucos minutos, o trem deve parar na plataforma. Devido a hora, apenas eles estão na plataforma. Um zumbido de alta freqüência se vaz ouvir ao longe. É o trem que se aproxima. Eles se entreolham e se permitem ter esperanças de sucesso, sorrindo nervosos. Ambos olham na direção de onde deve vir o trem.
E encontram, a alguns metros em pé, a figura de Ogum. O sorriso some como que por encanto de seus rostos. Ogum permanece imóvel, seu rosto inexpressivo.
Por longos segundos, nenhuma ação é tomada. Filipe sabe que, se tentar saca a arma, seria alvejado em segundos. Ogum também está imóvel, suas armas ainda guardadas em seus coldres. Lágrimas escorrem pelo rosto de Geovana. Finalmente, Ogum rompe o silencio.
- Bem que imaginei que acabaria assim, Filipe. Você é um velho sentimental que se deixou envolver.
- E você é um filho da puta arrogante- devolve o velho agente.
- Você não deveria estar aqui, Filipe. Não me interessa você. Portanto, última chance: cai fora e eu a levo numa boa, sem mortos ou feridos.
Silêncio.
- Esta puta velha o enganou. O tempo todo ela queria que você matasse Romano, e depois ela queria que você matasse o marido dela, para ela ficar com tudo sozinha. Não acha que você é o próximo? Assim que vocês estivessem a salvo, Felipe estava perturbado, confuso.
Filipe se coloca à frente de Geovana.
- Acredite, não quero matá-lo, mas farei isso, se necessário.
Enquanto ela está fora do campo de visão de Ogum, Geovana retira a oistola que usara para matar seu marido de dentro da mochila. Empurrando Filipe para o lado, ela ergue a arma e a aponta para Ogum.
Ogum age rápido, sacando uma de suas pistolas e disparando uma rajada curta, que atinge Geovana. Ela é lançada para trás e cai. Ao seu lado, o atônito Filipe vê Geovana cair no piso da plataforma, enchendo-o de sangue. Tomado por uma fúria incontrolável, ele saca sua velha Colt e aponta para Ogum, atirando freneticamente.
- Morra, miserável!
Ogum dispara novamente, atingindo Filipe. Ele cai, lançando seus pés para cima. Ele não sente dor com o ferimento apenas uma leve tontura. Caído, quase perdendo os sentidos, ele vê Geovana a poucos metros, ainda consciente. Ele estica seu braço para tocar a mão dela. Os dois estão de mãos dadas, chorando, quando Ogum se aproxima.
Tudo se torna escuro. Filipe escuta dois tiros, sendo o último deles o que lhe tira a vida.


“Relatório de diligência publicamente delegada 9876/2054.
A suspeita foi encontrada na plataforma 12 da estação de monotrilho de Neocitie III. Estava acompanhada de Filipe Scott, que aparentemente a estava ajudando. Ambos resistiram a voz de prisão, sendo necessário o emprego de força letal. Os dois estavam armados, ela com uma pistola Taurus Minuteman calibre .2222 Express e ele com uma velha pistola Colt Mark 80 calibre .45 ACP. Ambos morreram no local em decorrência dos ferimentos. Foi encontrada uma identidade falsa com a suspeita, além da arma e alguns percences. O oficial da polícia metropolitana Paulo Vieira esteve presente no local para ateste da situação. Diante dos fatos, encerra-se o presente relatório, sendo encaminhado o mesmo para devido reembolso do bonus devido.
São Paulo, 02 de outubro de 2053, 02:57”

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