O Busilis Blog

Este é o blog do Site www.obusilis.com. O Dia-a-Dia do Brasil e do Mundo no nosso diário de uma forma que ninguém ousa publicar. O mundo do ponto de vista Busilis.

segunda-feira, novembro 03, 2003

 
Prelúdio

Diante de um terminal de vídeo holográfico, o homem vestido com roupas escuras o aciona com um comando vocal.
- Acessar sistema do Departamento se Segurança Pública.
Surge uma imagem holográfica de uma mulher vestida formalmente. Ela “fala” ao homem:
- Departamento de segurança pública metropolitana do Estado de São Paulo. Favor identificar-se:
- Código Operativo: 934-OGUM-01. Solicitando nível de acesso 4.
Uma luz vermelha percorre o rosto do homem, se detendo sobre os olhos.
- Identificação da voz, rosto e retina completos. Dia 01 de outubro de 2053, 8:07. Bom dia, Ogum.
- Informar Diligências Publicamente Delegadas de hoje. Categoria: homicídios.
- Acessando informação solicitada. Favor aguardar.
Após alguns segundos, a voz feminina volta a se pronunciar.
- Nome do(a) acusado(a):Geovana Lima Delgado. Acusação: principal suspeita de homicídio qualificado de Fernando Lima Delgado, seu marido, em 30 de setembro último.
A imagem da mulher some. Surge então uma imagem tridimensional e estática da cabeça de uma mulher morena, jovem, de pele clara. Ela é Geovana.
- Mostre detalhes do crime.
É projetado um mapa da área metropolitana da cidade de São Paulo. Destacam-se no mapa holográfico cinco estruturas que circundam a cidade. Cada uma destas estruturas é um Megacondomínio, local aonde edificações imensas abrigam escritórios e moradias protegidos por segurança automática e privada. Interligadas entre si por um sistema de monotrilhos, as cinco estruturas – batizadas de Neocitie e numeradas de um a cinco - são o máximo exemplo de arquitetura e urbanismo, planejadas para oferecerem aos seus habitantes segurança, habitação, trabalho e os demais serviços. Para quem possa pagar por tudo isso.
- Crime ocorreu a poucas horas no complexo residencial de Neocitie II, residência dos Delgado. Ferimento fatal por arma de fogo, provavelmente uma pistola .2222, não encontradano local.
Ogum não solicita maiores informações. Ele sabe quem é a vítima e quem é a principal suspeita. Atualizado com as notícias, ele se lembra de um escândalo envolvendo ambos, um criminoso procurado e um antigo parceiro.
- Um outro agente autônomo já solicitou informações acerca deste caso. Este caso não tem solicitação de exclusividade, podendo ser executado por qualquer agente licenciado. Remuneração de 3500 bônus para captura da suspeita. Nível de periculosidade médio-baixo.
Se virando para um painel na parede ao lado, ele prime a palma de sua mão direita contra o mesmo, e ele se abre. Dentro do painel, um par de pistolas de aparência moderna são expostas. Ambas são pegas por Ogum. Ele as examina rapidamente, observando as mesmas serem destravadas automaticamente ao serem empunhadas. As pistolas são colocadas em coldres magnéticos presos a cintura de Ogum. Agora ele apanha um par de luvas e as calça. Por fim, ele coloca um par de óculos escuros. Na realidade estes óculos estão conectados por um sistema sem fio ao computador pessoal que ele carrega preso em seu cinto, que por sua vez interliga as armas que está portando e uma série de sensores dispostos ao longo de seu uniforme. Sob a lente dos óculos, surgem caracteres sobrepostos a imagem vista através das lentes. Nos fones de ouvido, uma voz artificial soa concomitantemente ao surgimento das mensagens na tela do óculos.
Iniciando BIOS...
Testes do sistema...OK
Teste dos sensores...OK
Acessando Link a rede Metropolitana...OK
Carregando Subrotina de controle de fogo...
Identificadas 02 pistolas KOBRAK 9, calibre 9mm TecMag. Vinte munições sem cápsula de núcleo de urânio 300 grains em cada arma.
Carregando tabela balística.
Calibrando sistema de telemetria das miras.
Data do sistema: 01/10/2054..
Identificação de retina Ok. Pronto para uso.

- Trasmitir informações do caso ao meu terminal móvel. Agente em diligência pública. Abrindo relatório de ocorrência para o caso .
.









I

A jovem mulher de cabelos negros e pele clara solta a mochila, surpresa e assustada, quando a porta do seu quarto de hotel é violentamente aberta. Um homem de pequena estatura entra e aponta-lhe uma pistola.
-Não se mexa, sua puta! Mantenha as mãos aonde eu possa vê-las!
O nome dela é Geovana, e ela mostra as mãos abertas, com suas palmas voltadas para o homem armado. Seu semblante emoldura uma expressão de tristeza e pânico.
-Não tente nada, vagabunda! Vou levá-la, viva ou morta, não me importa. Ganharei o bônus, de qualquer maneira...
Um barulho atrás dele o interrompe e o faz virar. Ele vê um homem de cabelos curtos e grisalhos, aparentando meia idade, vestindo um sobretudo velho cinza.
-Porra, Filipe, o que faz aqui? Também está procurando ela?
-De certa forma, sim - responde o recém-chegado, seu rosto não aparentando nenhuma emoção.
-Você fique quieta – fala o homem armado, apontando ainda a arma para Geovana e se posicionando de forma a manter tanto Geovana quanto Felipe dentro de seu campo de visão- não leve a mal, Filipe, mas cheguei primeiro, e eu é quem vou levá-la e receber minha recompensa.
-Sem problema, filho. Estou indo embora - fala Felipe enquanto se vira lentamente e se afasta pelo corredor.
-Ótimo- replica o baixinho ao voltar sua atenção exclusivamente para Geovana – e você agora vem comigo...
Um estampido seco assusta Geovana. Simultaneamente ela vê a lateral da cabeça do homem armado explodir em sangue e fragmentos de ossos e cérebro. O corpo já sem vida cai para dentro do quarto. Calmamente, aparece à moldura da porta Filipe, empunhando uma velha pistola de onde ainda sai fumaça. Ambos se olham um instante, ela ainda paralisada de pavor, ele impassível diante da cena. Por fim, ele fala.
-Eu vim assim que recebi seu recado. Por pouco eu não chego tarde demais.
Ela finalmente se move, e corre para abraçá-lo, chorando ao apertar seu rosto contra o peito dele.
-Apanhe suas coisas para sairmos daqui. Pode aparecer a polícia ou mais algum agente privado.
-Você o conhecia?
-Sim. Um maldito caçador. Por isso agi desta maneira. Vamos logo.
...

“Relatório de diligência publicamente delegada 9876/2054.
Nome do(a) acusado(a):Geovana Lima Delgado
Acusação: principal suspeita de homicídio qualificado de Fernando Lima Delgado, seu marido, em 30 de setembro último.
Nível de periculosidade: médio-baixo. Porém devo pessoalmente aumentar isso para algo entre 3 e 5, pois acredito na possibilidade de envolvimento de terceiros.
Início da descrição das atividades
Ao iniciar a busca da suspeita, foi definido verificar um crime ocorrido em um hotel na rua das Timbiras, antigo centro comercial da cidade de São Paulo. Há evidências de tal fato estar relacionado com a suspeita”

Perto do corpo coberto com um lençol velho de um dos quartos do hotel, dois policiais fardados, um jovem e o outro aparentando mais idade, conversam tranqüilamente enquanto esperam a chegada dos peritos e técnicos do DML para remoção do corpo.
-Sabe quem era este cara?
-Não me é estranho...
-Era um autônomo. Seu nome era Moriel. Ele era foda. Foi ele quem pegou aquele criminoso em Higienópolis, o Turco Loco.
-Aquele? Então quem o pegou deve ser muito perigoso...
-Moriel era um amador de sorte e oportunista. Ele só matou Turco Loco porque este estava chapado demais para sacar a arma.
Ambos os policiais se voltam para trás para identificar quem falara aquilo. Eles vêem um homem jovem. Este se veste com roupas escuras: botas, calça, jaqueta. Usa um óculos escuro de aparência diferente e luvas negras. Barba por fazer, cabeça raspada.
-Quem é você? Não pode ficar aqui...
Antes que um dos policiais completasse a frase, o jovem mostra um cartão rígido com brasão de armas do ministério da justiça e com os escritos “Departamento de Polícia Federal”, “identificação de agente autônomo”, “código operativo:934-OGUM-01”. Antes que o policial pudesse ler o nome impresso no cartão, o rapaz o guarda. E se aproxima do corpo, agachando-se ao lado do mesmo.
-Ei, aqui é a cena de um crime! Tem provas aí!
-E vocês dois estão pisando nelas. Queiram por favor se afastar.
-Você é muito folgado, cara! Você não é policial, é apenas um agente autônomo. Isso é trabalho para a perícia...
O outro policial puxa o colega pelo braço e o afasta.
-Venha, deixe-o aí. Afinal, não é problema nosso.
-Mas este idiota...
Sussurrando, o policial mais velho admoesta o parceiro enquanto o afasta do agente privado que examina o cadáver.
-Idiota é você! Não viu a identificação do sujeito?
-O fato dele ser um agente de segurança privado não lhe dá o direito...
-Não é isso. É o código do sujeito.
-Nem vi o seu nome...
-Não importa. Este puto aí é conhecido apenas como Ogum.
-E daí?
-Nunca ouviu falar nele? Bem, um conselho: não se meta com ele. Sabe o policial Agenor?
-Aquele que está no hospital em coma cagando por uma sonda?
-Quem você acha que colocou ele lá? É claro que ninguém tem provas, mas Agenor teve a péssima idéia de interferir em um caso que este Ogum estava investigando pouco antes de ele ser encontrado naquele estado.
Apesar de estar concentrado em suas observações, Ogum não deixa de escutar a conversa da dupla de policiais, e se permite um leve sorriso. Através de seus óculos, ele observa o ferimento na cabeça de Moriel. Sob comando ocular, o sistema de seu computador pessoal mede o diâmetro do orifício. Ogum encosta um objeto semelhante a uma caneta próximo ao ferimento.
“Observado ferimento letal de projétil. Orifício de entrada com pouco mais de doze milímetros de diâmetro. Pelas marcas ao redor do ferimento o tiro foi disparado a pouca distância. Os vestígios encontrados foram identificados como pólvora, o que indica o uso de arma de fogo que calça munição que utiliza cápsula e usa como propelente pólvora sem fumaça. Uma arma peculiarmente antiga e não muito comum.”
Ele olha para o suposto local aonde estaria o atirador e faz uma busca visual. Na tela de seu óculos surge um pequeno objeto brilhante de tom dourado. Automaticamente o objeto é marcado na tela e sua imagem ampliada. O agente se ergue e caminha até o objeto, apanhando-o.
“Cartucho de munição de pistola semi-automática calibre .45 ACP. Fabricação nacional. Exame preliminar não mostra vestígios de impressões digitais que possam ser utilizadas para identificação do atirador. Porém, dado o exotismo do mesmo, pode facilitar tal identificação”.
Apesar de não considerar uma evidência objetiva, ele não pode ignorar o fato. Ele pessoalmente conhece alguém que utiliza uma arma antiga que calça este calibre quase obsoleto. Apesar de ser necessário um exame balístico para analisar as marcas no projétil para identificar exatamente de qual arma tal projétil foi disparado, ele tem quase certeza de saber com quem está lidando.
...

Filipe verifica mais uma vez a sua arma, uma velha pistola Colt, uma relíquia construída em aço, algo raro em tempos de armas de percussão eletrônica e construídas em polímeros especiais. Porém ainda bem eficiente, como alguns puderam averiguar da pior maneira. Antes de sair do carro, ele encaixa o carregador de sete munições na pistola e a mantém oculta, porém empunhada e pronta para uso.
-Pode sair, Geovana. Está limpo.
-Aonde estamos?
-Se quisermos sair da cidade, precisamos de uma nova identidade para você.
Ambos saem do carro e se dirigem a uma porta de metal. Filipe olha para cima, em direção ao que ele supõe ser uma câmera de vigilância.
-Abra, Mina. É Felipe. Preciso de sua ajuda.
Nenhuma resposta durante longos segundos. Geovana parece nervosa, olhando em volta e apertando suas mãos no braço esquerdo de Felipe.
A poucas semanas, ela não conceberia estar naquela situação, e principalmente ao lado daquele homem.
A primeira vez que se viram ela era uma mulher casada com um importante empresário e vivia no Megacondomínio Neocity II, localizado na antiga zona leste de São Paulo, um dos cinco Megacondomínios que hoje abrigam empresas e moradias isoladas do caos reinante nas ruas da megalópole paulista. Ele trabalhava como agente de investigação privado e estava em busca de um criminoso foragido de uma prisão do interior do Estado. Ele tinha razões para acreditar que o criminoso estaria na capital.
- Mas o que tem a minha esposa a ver com este caso, senhor agente? -indagara seu marido, Fernando Lima Delgado, a Filipe.
- Não se preocupe, senhor Delgado. Sua esposa não está sendo incriminada. Se não se importa, apenas gostaria de conversar com ela.
- É claro que me importo. Pessoalmente estou cagando para o que acontece nas ruas. Vivemos aqui alheios a esta violência toda e não quero que minha esposa seja afetada, mesmo que indiretamente. Já que minha esposa não tem relação direta alguma com o caso que você investiga, você não tem nada que falar com ela. Fui claro, ou necessito chama um advogado?
Ela lembra-se de assistir a conversa de ambos. Ela estava nervosa, temendo que o investigador falasse algo que ela não gostaria que seu marido soubesse. Felipe olha por cima dos ombros de Delgado e encontra os olhos tristes e suplicantes de Geovana. Por um momento se encaram, e então ele fala:
- Tudo bem, senhor Delgado. Me desculpe o incômodo.
Horas depois ele estaria sozinho em um pequeno bar de Neocitie II, bebendo sozinho no balcão. Enquanto bebia uma dose de Steinhager escutando uma antiga música que escolhera na Jukebox digital, ela surge, ao som de “My one and Only love”.
- “And you appear in all your splendor...” – cantarola ele ao vê-la.
- Desculpe, o que disse?
- É apenas a música. Uma relíquia do século passado. Igual a mim.
- Olha, eu não deveria estar aqui, mas vim lhe agradecer.
- Por que? Por ter aparecido em sua casa e interrompido o sossego dos Novos burgueses com notícias do mundo real?
- Se estava me procurando por causa de Romano, deve saber de nosso relacionamento no passado e o que eu fazia para viver. E poderia usar isso legalmente para obter a informação que quer comigo. Mas não falou nada a Delgado.
- Como disse, sou uma relíquia. Ainda sou tolo o suficiente para acreditar em coisas obsoletas como cavalheirismo, gentileza, atos desinteressados...
- Ainda assim agradeço. Agora devo ir.
- Como vocês se conheceram, digo, você e seu marido...
- Estava fazendo um trabalho no condomínio. Graças a alguns clientes, eu tinha acesso aos Megacondomínios. Eu o conheci por acaso, enquanto fazia compras. Ele nunca soube...
- E foi seu passaporte definitivo para sair da sarjeta.
- Me condena por isso? - pergunta séria, enquanto coloca um cigarro na boca e tenta acendê-lo.
- É uma maneira de ganhar a vida- diz ele, enquanto acende seu cigarro com um isqueiro de aço escovado.
- Acha que meu casamento é uma profissão? Eu gosto dele.
- Acredito- responde, com um pequeno sorriso sarcástico.
- Talvez sua vida seja melhor. Caçando pessoas por dinheiro Já matou alguém?
Ele apenas confirma balançando a cabeça, enquanto termina sua dose.
- .Já se questionou se as pessoas que perseguia eram inocentes ou não? Quem sabe uma das que você matou.
- Seria chato, não? Mas o problema não é meu. Não sou eu quem define quem é suspeito nem sou eu quem julga se são culpados ou inocentes. O poder público é insuficiente para conter a criminalidade, e é por isso que existem as agências e os agentes privados. Para proteger gente como você e seu marido do mundo real, mantendo a sujeira fora destes muros.
- Caçando gente como animais. Acredite, você não pode me julgar. Não tem moral para isso.
O bartender serve outra dose de Stainheger.
- Nunca pensou que um dia você pode ser caçado?
Ambos se encaram. Uma pose de desafio, um olhar perscrutador, um tentando adivinhar o pensamento do outro. Ambos sustentam o olhar por longos segundos.
II
A porta metálica abre suavemente. Geovana é desperta de suas lembranças. Filipe a introduz no ambiente escuro. A porta fecha atrás de ambos. À frente deles, um vidro separa-os de uma mulher sentada atrás de um console de computador. Ela tem cabelos curtos de cor vermelha e veste uma jaqueta de couro e uma saia minúscula, deixando um par de belas pernas à mostra. Ele também faz questão de deixar à mostra uma arma sobre a mesa do console, bem ao alcance das mãos. Mantendo sua visão na tela do console, ela inicia o diálogo.
- Ora, ora, o que um velho e respeitável servidor da lei quer com uma conhecida despachante? Sabe que sou profissional e meus clientes tem direito a sigilo.
- É com isso que eu conto. Acho que é hora de eu cobrar aqueles favores que você vive dizendo que está me devendo.
Na tela que Mina observa ela capturara a imagem oriunda da camera de segurança para identificar seus clientes. Apesar de conhecer Filipe, Mira gosta de saber com quem está lidando, e solicitara ao computador a identificação da acompanhante de seu conhecido. E enquanto ela conversa com Filipe, as informações solicitadas chegam em sua tela. Mantendo a cabeça inclinada, Mina levanta os olhos e encara Geovana.
-Devo imaginar que queira algo para a sua amiga, aí.
-Exatamente. Nova identidade, com passe livre.
-Você sabe cobrar bem. Tem idéia do risco?
-Isso nunca foi problema pra você no passado. Em boa parte por minha causa.
-Não precisa me lembrar, coroa. Não faz o seu tipo.
-Você provavelmente já sabe a encrenca na qual ela está metida. E sabe que preciso tirá-la da cidade o mais rápido possível.
-Já entendi a situação. Só não entendi o porquê de você estar ajudando ela.
-Vai nos ajudar ou não?
-Pedindo assim com jeitinho...
Mina tecla freneticamente, organizando os dados e montando uma nova identidade para Geovana.
-Ela não vai me perguntar nada?- sussura Geovana para Filipe.
-Tudo que preciso está aqui em meu computador. Nome, idade, coisas que você não gostaria que ninguém soubesse...Alguma preferência por nome? Espero que não. Dado a urgência, não tem como inventar uma nova identidade e inserí-la na base de dados do governo. Leva tempo. Em situações como a sua, preciso encontrar uma identidade “disponível” que se encaixe em seu perfil.
- Você tem alguma disponível?
- Não, chefinho. Tenho poucas comigo, pois não quero ser pega com as calcinhas na mão. Normalmente eu crio uma e “planto” na base de dados, legitimando-a . Como eu disse, leva tempo. Em casos de urgência, como o de vocês, preciso acessar a base de dados de uns “hackers”que possuem estas identidades “disponíveis”. Você sabe: pessoas que morreram mas que por falha do sistema estão “vivas” virtualmente, pessoas dadas por “desaparecidas” durante os anos mais pesados do governo, identidades “apagadas” pelo sistema de recolocação de testemunhas...bem, mas obter estas informações custa dinheiro...
Como que respondendo a “indireta”, Geovana tira de sua bolsa alguns cartões.
- Tenho crédito disponível, e também alguns chipcash...
- Você enlouqueceu? Se eu colocar esta sua identificação em meu sistema, em poucos segundos estaremos cercados de policiais. E estes Chipcash, de quem são?
- Estavam no cofre de meu marido...
- Que maravilha. Com certeza a polícia também está rastreando estas verdinhas. Posso até segurar isso comigo, mas a partir do momento que eu tentar colocar estas notinhas em circulação, o pessoal vai me enquadrar bonitinho. Comigo só dinheiro de verdade. Não tem complicação.
- Você não tem como converter?- pergunta Filipe.
- Não faço mais isso, coroa, desde aquela vez. Foi você mesmo quem me aconselhou...
- Me lembro...tem como você ir adiantando o processo até conseguirmos o dinheiro?
Mina respira fundo, olha pros lados e ergue os braços, em resignação.
-Só por que é pra você, meu querido. Mas não sacaneie, nem traga encrenca para cá. Vou ter que usar uns créditos que eu tenho aqui para conseguir esta identidade.
-Ótimo, linda. Estamos saindo. Assim que conseguirmos a grana, voltaremos para pegar os documentos.
Uma informação que surge em uma das janelas do console de Mina chama-lhe a atenção. Ela detém a saída de Filipe.
-Só mais uma coisa, Filipe. Acabei de ver aqui no sistema algo que talvez você não goste...
Filipe se detém à porta e vira o rosto para Mina.
-O que houve?
-Bem, estou vendo que seu velho parceiro está com o caso. Seja rápido, meu velho, senão eu vou acabar no prejuízo. E você também.
Apesar de não aparentar, Filipe sente algo muito parecido com medo. Ele se afasta e a porta se fecha. Ao caminho do carro, Geovana percebe a mudança sutil de comportamento de seu parceiro.
- De quem ela estava falando?
- Nada que deva preocupá-la. Olha, não devemos nos separar. Iremos a um lugar que conheço que poderemos obter dinheiro em espécie. Não é prático e nem visto com bons olhos andar com dinheiro em espécie, mas nestas circunstâncias, é a melhor maneira...
- De quem ela estava falando?- insiste, de forma incisiva.
Ao entrarem no carro, ele resolve falar.
- Está falando de um agente que já trabalhou comigo quando trabalhava na Agencia de Segurança Privada Nemesis. Hoje ele trabalha por conta própria.
- Alguém como aquele que você matou no hotel do centro?
- Antes fosse. Não quero assustá-la, mas a última coisa que eu gostaria nessa vida era de ter ele em meus calcanhares.
- Você também é um agente treinado. Pode cuidar dele como fez com aquele outro. Além disso, vocês já foram parceiros. Será que não conta?
- Acredite, depois do que vi uma vez, percebi que não poderia com ele se estivéssemos em lados opostos. Ele é um bom investigador, e um assassino frio. Devemos nos apressar. Não quero cruzar com ele em hipótese alguma.
- Você está nisso por minha causa. Se quiser, me deixe e siga sua vida. Com sorte, ninguém vai ligá-lo ao assassinato daquele agente.
- Shhh. Não fale bobagem. Logo, chegaremos em um lugar aonde obteremos o dinheiro e voltaremos para Mina e apanharemos seus novos documentos, e até o final do dia, estaremos fora da cidade.

Filipe se lembra de como começou nesta profissão. Ainda jovem, entrara para a Polícia Civil do Estado de São Paulo. Atuara durante muitos anos como investigador, porém se decepcionara com a corrupção do sistema. Durante o regime de exceção implantado nos anos trinta, o governo central determinou que parte das atividades de segurança pública passassem para a iniciativa privada. Surgiram agências especializadas em oferecer serviços de segurança para órgãos do governo e para pessoas que preferiam pagar para garantir sua segurança. Durante esta transição, ele acabara indo trabalhar em uma empresa de segurança privada, a Nemesis. Nos últimos anos de atividade naquela empresa, ele trabalhou com um jovem agente. Filipe não sabia muito a respeito dele. Sabia apenas que ele entrara na agência exercendo função de apoio técnico, mas que depois se tornou agente de campo. Haviam histórias a respeito de um fato ocorrido antes envolvendo o jovem, mas ele não levava a sério. Não até aquele dia.
Ambos estavam encarregados de encontrar um grupo oriundo de uma célula terrorista. Normalmente terrorismo urbano era assunto da Polícia Federal e da ABIN, mas este grupo tinha uma mulher com mandado de prisão expedido por crime de homicídio não enquadrado no código de segurança nacional.
Filipe havia encontrado a pista deles antes dos órgãos de repressão do governo, e solicitara o apoio de seu parceiro. Enquanto ele não chegava, Filipe seguira até o “aparelho” aonde estavam escondidos. Para ele só interessava capturar a mulher viva. Os demais não eram problema dele. Mas seriam um problema, claro.
Enquanto estava de campana diante do velho prédio em Perdizes, um rapaz do grupo desconfiou da presença dele e avisou aos outros, que resolveram fugir. Percebendo a movimentação, Filipe tenta impedir. Por um instante, ele tem um dos componentes sob sua mira. Porém ele hesita, pois é apenas uma adolescente. Ambos se olham nos olhos, e Filipe não puxa o gatilho.
Neste exato momento chega Ogum. A adolescente tenta sacar sua arma. Filipe se surpreende quando surgem duas pistolas nas mãos de seu parceiro, que disparam rajadas curtas. A moça é atingida. Os demais componentes do grupo iniciam um tiroteio, mas Ogum é extremamente rápido e preciso, atingindo dois jovens, um deles pelas costas. Um tiro praticamente arranca a perna esquerda da suspeita que eles procuram, explodindo sua rótula. Ela cai no chão, gritando de dor. Ogum se aproxima dela, e passa ao lado a jovem que ele atingira primeiro. Ele pára e encara o olhar suplicante da menina ferida. E simplesmente atira nela, matando-a .
Assistindo a tudo isso, sem esboçar reação, estava Filipe, ainda empunhando sua velha pistola. Ogum desarma a suspeita, chutando a arma para longe e encostando sua pistola na cabeça da mulher.
- Me mate, seu filho da puta!
Ele simplesmente puxa o gatilho. A cabeça da mulher explode em pedaços de osso e cérebro.
Horas depois, Filipe está diante do diretor executivo da Nemesis, Issac Dayan. Ogum relatara exatamente o que ocorrera.
- Aquele rapaz é um assassino frio. Não houve chance para aqueles jovens!
- “Aqueles jovens” eram acusados de terrorismo pelo governo. Eles reagiram e nosso agente foi bastante eficiente. Ao contrário de você.
- Ele matou aquela moça. Ela não deveria ter dezoito anos...
- E você nunca faria isso, não? Sei que você foi um bom policial, Filipe, mas aqui é uma empresa, e precisamos ser eficientes para darmos lucro. Aqui não é a polícia. E Ogum agiu a contento: a suspeita foi pega, porém resistiu a prisão e acabou sendo morta, junto com seus colegas.
- Você corrobora o que aquele psicopata fez?
- “Aquele psicopata” tem se revelado meu melhor agente. Sem querer ofender, mas seus métodos se tornaram pouco eficientes para estes tempos, Filipe.
- O que quer dizer? Que sou um “item obsoleto”? Que não presto mais para o serviço?
- Bem, você passará por avaliação psicológica e por uma reciclagem. Você foi um dos primeiros agentes de nossa empresa, e nunca teve treinamento aqui, pois por ser um ex-policial, presumimos que não haveria necessidade. Mas temos que reavaliar sua atuação aqui...
- Vá se foder, Issac!
Depois daquele episódio, ele passou a atuar como autônomo, sem vínculo direto com agências de segurança. Ele soube que Ogum fizera o mesmo, apesar de eventualmente ainda prestar serviço a Nemesis.

III


Ogum quase chega a sentir a presença dos dois que persegue naquele apartamento aonde morara seu antigo parceiro. Ele sabe que ambos estiveram juntos ali a algum tempo, porém é óbvio que ele não a traria aqui, não nestas circunstâncias. Apesar de oficialmente ele não estar sendo procurado, ele é um detetive, e sabe que um bom investigador ligaria os pontos e poderia procurar ali. Ogum está ali apenas buscando evidências.
Tudo que encontra é vestígios de que o ocupante do apartamento saíra às pressas, levando apenas o essencial. Enfim, ele apenas possuía o essencial, mesmo. Verificando os registros das comunicações efetuadas e recebidas através do terminal doméstico multifunção – um nome pomposo ao sistema informatizado multimídia que substituíra o convencional e obliterado telefone – ele descobre uma ligação recebida horas atrás justamente do apartamento de Geovana, pouco depois da hora estimada do crime. Testemunhas no hotel descreveram a presença de pessoas cuja descrição bate com a de Geovana e de Filipe. Para ele, não há dúvidas de que ambos estão juntos. Antes de sair, Filipe não executou nenhuma comunicação a partir de seu terminal. Ele esperaria, com baixa expectativa, encontrar alguma evidência do próximo passo de sua caça. Mas muito do que Ogum aprendera da arte da investigação e da dedução ele deve a seu antigo colega. Ele sabe qual o provável próximo passo.

Filipe estaciona o seu veículo nos fundos do prédio aonde funciona um nightclub. Na entrada do mesmo, ele fala com os seguranças.
- Preciso falar com Cooler Walace.
- Não há ninguém com este nome aqui - responde o pouco amigável segurança.
- Eu preciso fazer negócios com ele. Não sou policial, se é o que pensa. Estamos precisando dos serviços de Walace com certa urgência, por isso não ligamos antes marcando hora.
- Tudo é urgente.
- Mas algumas urgências são mais urgentes que outras. Diga a ele que são negócios
Filipe coloca um chipcash no bolso do casacão do segurança.
- Entre misturado aos outros convidados e pergunte ao barman do balcão azul.
- Obrigado.
Filipe e Geovana entram na boate. Um som eletrônico rítmico e alucinógeno, inaudível do lado externo do prédio devido a moderna isolação acústica, invade seus ouvidos. Uma multidão de jovens dançam alucinados. Eles se dirigem a um ambiente mais tranquilo, aonde algumas pessoas bebem e fumam próximos a um balcão de material sintético translúcido. Mulheres nuas com o corpo pintado servem os convidados VIP. O acesso é restrito.
- Fique por aqui, Geovana. Me dê seu cartão e os chipcash que tiver. Vou falar com Walace.
Geovana se lembra que freqüentara muito estes ambientes antes de casar e morar em definitivo dentro de um Megacondomínio. Ela sabia que só os que podiam pagar tinham acesso as vantagens e a segurança proporcionadas pelo avanço tecnológico, porém restritos ao perímetro das chamadas Neocities. E ela estava disposta a pagar qualquer preço para acessar aquele mundo.

...

Após aquela noite no bar, Filipe chegou no cubículo aonde morava e ficou lembrando das palavras da jovem Geovana. E da própria Geovana. Ela não falou nada sobre Romano. Ele fazia parte de uma passado que ela queria apagar. Mas as coisas que ela falou...será que era isso que o perturbava, ou aqueles olhos de jade, aquela boca carnuda, aquele perfume. Demorou a dormir naquela noite. E nas seguintes.
Dias depois daquilo, Filipe procurara esquecer dela. Em casa, escutando uma velha gravação de Branford Marsalis, alguém aciona o porteiro automático.
- Quem é? - pergunta em voz alta ao sistema viva-voz, enquanto tira sua velha pistola da gaveta, carrega-a e puxa seu ferrolho, deixando-a pronta para uso.
- Aqui é Geovana. Preciso falar com você.
Autorizando sua entrada, em poucos minutos ela sobe e entra em seu apartamento. Ele está surpreso pela presença dela em seu lar. Ele guarda a pistola em sua cintura.
- O que houve?
Geovana demora um pouco a falar, por fim, responde, baixinho:
- Romano me procurou...
- Como é? Quando? Onde ele está?
- Ele...me procurou, querendo que eu conseguisse dinheiro para ele. Disse que se eu não o encontrasse ele contaria tudo a meu marido...
- Onde ele está?
- “Onde ele está”. É só com ele que se importa, com ele e a sua maldita “recompensa”? Quero que ele se foda! Ah, foi um erro eu vir aqui.
Ela se dirige a porta, mas Filipe a segura pelo braço.
-Desculpe. Pensei que você havia vindo para me informar sobre ele. Calma, está tudo bem.
Ela começa a chorar.
-Não, não está tudo bem! Você tinha razão! Pensei que podia ignorar o meu passado, mas infelizmente aquele maldito voltou para me aterrorizar. Desde aquela época que ele me explora. Pegava quase todo o meu dinheiro, me batia, assustava meus clientes...depois que ele foi preso por assassinato tudo deu certo para mim. E agora...
-Porque está falando isso para mim?
-Você é o único a quem posso confiar a minha história.
Ele a convida para sentar e serve-lhe uma bebida. Por um instante ele esquece a sua função e apenas escuta o desabafo da jovem. As lágrimas borram a maquiagem. Ela parece mais bonita , assim.
- Que música é essa que está tocando?
- É outra velharia. É de um antigo músico inglês chamado Sting.
- É bonita. Do que ela fala?
- De uma mulher chamada Roxane. Acho que ela era prostituta, e ele diz na música que ela não precisa mais fazer aquilo.
- Será que ela o escutou?
- Quem sabe?
Os dois riem um pouco. Ela está mais relaxada. Como é bonita, pensa Filipe.



IV

Cooler Walace, um homem de aparência estranha. Alto, branco, olhos azuis claros, cabelos descoloridos e espetados, parece uma figura alienígena. De certa forma é, já que é holandês de nascença. Oficialmente ele é apenas um empresário da noite com negócios legais, mas ele trabalha com venda de equipamentos controlados, desde drogas ilegais a armas, além de chipcashs frios e câmbio de moeda virtual para dinheiro em espécie, atividade restrita ao banco central. Ele recebe Filipe, que explica de forma breve a sua necessidade. Oferece uma bebida, gentilmente negada.
-Não imagino o porquê de você fazer negócios comigo, senhor Scott. Já o conheço a anos e não me lembro de você necessitar de meus serviços.
- Digamos que não gosto muito da burocracia do Banco Central. Pode me conseguir o dinheiro?
- Sim. Algum em espécie, outra parte em chippcash avulso.
Enquanto Walace insere os cartões em um leitor e calcula os créditos, ele aproveita para abrir uma maleta de material rígido e mostrar seu conteúdo a Filipe: uma pistola e seus respectivos acessórios.
- Não quer uma arma, também? Quer dar uma olhada? Veja esta pistola. Fabricação israelense, uma legítima Kobrak 9. Capacidade relativamente pequena, vinte cartuchos. Mas é uma arma de precisão e poder de parada, percussão eletrônica ou opcional mecânica, cadência e mira controlada por computador. Sei que a maioria prefere uma pistola calibre .2222 Express com capacidade de 30 a 40 munições ou uma subcartucheira automática, mas esta pistola é para profissionais...
Por dentro ele concorda. Infelizmente, pois ele sabe que é o tipo de arma que Ogum utiliza. Ele sempre porta duas, com munição sem cápsula e projéteis de núcleo de urânio gasto e revestimento de polímero ultraduro.
- Ainda prefiro minha velha Colt.
- Tudo bem. Aguarde um pouco que estou providenciando seu dinheiro.
...

Felipe estava perturbado, confuso. Ambos se encontraram novamente umas duas vezes,. Será que aquela mulher realmente o queria ou estava querendo usá-lo para se livrar de Romano? Apesar de em momento algum ela pedir explicitamente isso, ela deixou bem claro que Romano não a deixaria em paz, e que seu maior desejo naquele momento seria que Romano saísse de sua vida. De um jeito, ou de outro De qualquer maneira, era sua tarefa apanhar Romano. Vivo ou morto.
Com as informações obtidas com Geovana, Filipe chega a um pequeno hotel na rua do Arrouche. Lá, obtém a confirmação de que Romano estaria hospedado ali. Ele vigiara a entrada do hotel no bar em frente. Quando Romano chega, ele levanta-se e se aproxima discretamente. Apesar disso, Romano acaba brigando com Filipe, desarmando-o e o espancando bastante.
- Foi aquela vagabunda que o mandou, não foi?
- Vá se foder!
- Vá se foder você! Você e aquela puta! Ela vai me pagar!
Romano conseguira acesso ao condomínio com uma identificação que tirara de Geovana, e invade a residência dela. Com a arma apontada para Geovana e seu marido, Romano conta toda a verdade.
-O que você acha que esta vaca fazia antes de casar com você? Ela era puta. Era minha puta! Dava para qualquer um que pagasse. E ela era boa no assunto, satisfação garantida do cliente. Todo dinheiro que ela ganhava dividia comigo. Ah, não sabia? Tem muito mais...
-Solte a arma, Romano- Filipe entra e aponta sua pistola para o criminoso.
-Ah, outro idiota que esta vaca enganou. O que foi que ela disse? Que eu a explorava, que a espancava, e pediu para que você me matasse? Como vocês são idiotas! Mas eu vou fazer um favor a vocês.
Na confusão, Filipe descarregara os sete tiros de sua pistola em Romano. Ele segura sua Colt, com o ferrolho aberto expondo o cano fumegante. Geovana chora. Seu marido fica atônito.
Após o fim do caso Romano, Filipe passou umas duas semanas sem ver Geovana. E ele achava que nunca mais a veria. Não obstante, uma noite ela aparece em seu apartamento. Ele a recebe, e ela o abraça, chorando.
- Meu deus, minha vida virou um inferno!
- O que houve?
- Depois daquele episódio, meu marido me odeia, me despreza! Ele me humilha, me espanca, quer me expulsar de casa, me tirar tudo! Não é justo!
- Ninguém disse que teria que ser justo.
- Mas eu não mereço!
- Não é questão de merecer. Isso não importa.
Ele apenas a abraça. É apenas uma questão de tempo para que estejam se beijando. Filipe sabe que está se envolvendo perigosamente com ela, mas não consegue evitar. Ele sente uma necessidade quase patológica de protegê-la, de consolá-la, de amá-la.
...
Ogum se identifica na entrada do nigthclub e se mistura a multidão. Através do seu visor, informações oriundas de seu computador se sobrepõem a imagem de uma multidão de pessoas dançando. Ele procura nessa multidão o rosto de Geovana. Ou de Filipe. Ele sabe que Cooler Walace fornece serviço de câmbio ilegal, e Ogum também sabe que a primeira coisa que provavelmente Filipe varia seria obter dinheiro não rastreável e documentação falsa. Ambas as coisas ele poderia conseguir aqui. Ou pelo menos uma delas, caso não confie o suficiente em Walace. Por precaução, ele solicita ao seu computador informações adicionais sobre o prédio.
Alheia a isso, Geovana pede um refrigerante no balcão e procura se manter fora da vista. Ela nota dois homens conversando entre si e olhando para era. Serão policiais? Agentes privados? Um deles seria Ogum? Ela tenta não olhar para eles e se afasta daquele local com sua bebida. Ela nota que os dois a perseguem com o olhar. Ela segue em direção a sala VIP aonde está Filipe.
Fatalmente, seu rosto surge na tela sobreposta nas lentes do visor de Ogum. Ele a identifica positivamente e se aproxima da forma mais discreta possível, olhando ao redor para verificar se Filipe estaria por perto. Não vê Filipe, mas sua percepção treinada nota a aproximação de dois homens em direção a Geovana. Imediatamente ele grava a imagem de ambos e ordena ao seu computador, através de um comando ocular, a tentar identificar os dois. Enquanto aguarda o retorno de sua consulta, ele se aproxima cada vez mais de sua presa, sem deixar de observar a dupla ainda não identificada. Geovana olha diretamente para Ogum, mas ele não está olhando diretamente para ela, que esta não percebe o perigo.
A porta de vidro desliza silenciosamente, deixando Filipe sair da sala VIP. Geovana sorri, aliviada. Ele retribui levemente o sorriso, mas este some de seu rosto. Ele vira Ogum a menos de três metros dela. E este também vira Felipe.
- Sai daí, Geovana!- grita um desesperado Felipe
Os dois homens notam a confusão e sacam armas e apontam para os três.
- Todo mundo quieto! Ela vem conosco! E quem se meter leva bala!
Um átimo de tempo paradoxalmente longo. Ninguém esboça reação. Os dois se aproximam de Geovana, mas Ogum está entre eles e ela.
Em um pequeno e quase imperceptível movimento da cabeça, ele identifica os potenciais perigos ao seu redor e os classifica por nível de ameaça imediata, sendo marcados no visor. Os dois homens que chegam- que ele identifica como seguranças a serviço da casa- mais um outro segurança dando cobertura a vinte metros na sua posição de sete horas, outro em sua posição de três horas a oito metros, um quinto em uma passarela três metros acima de sua cabeça e dois metros a frente. Além de Geovana e Filipe.
- Muito bem, seu idiota. Sai da frente...
“Prioridade dos alvos definida”.
Num movimento rápido, a mão esquerda de Ogum pega a mão do segurança que está segurando a arma e a torce, quebrando-a . Num único movimento, ele saca outra pistola com a mão direita e a golpeia contra o crânio do segurança, que grita de dor antes de perder os sentidos, com um pulso quebrado e uma concussão. A arma sacada é apontada para o segundo alvo.
O outro segurança esboça uma reação. Tenta atirar, mas seu colega bloqueia sua posição. Ao ver que será alvejado, ele não se importa e puxa o gatilho, acertando o seu parceiro. Ogum dispara uma rajada curta de três tiros, acertando o segurança na altura do peito, matando-o instantaneamente.
Antes dos dois corpos caírem, Ogum saca sua outra pistola com sua mão esquerda e usa ambas. Girando o corpo, ele aponta e atinge com precisão o alvo atrás dele com a pistola da mão direita, enquanto atinge o outro alvo com a outra pistola. Completando o giro, ele levanta ambas as mãos e atira para cima, acertando o último alvo, que cai da passarela, morto. Seus dois últimos alvos conseguiram atirar, porém um único tiro o acertou, mas foi detido pelo colete de cerâmica e Tweedraw que estava usando sob a roupa.
Atônita, Geovana é puxada por Felipe para trás da porta de vidro. Ela não consegue deixar de olhar para trás. Ogum se volta na direção de seus principais alvos e aponta suas armas.
-Não olhe para trás, e corra como o diabo!
Ambos conseguem sair do campo de visào de Ogum pouco antes de uma rajada estilhaçar a porta de vidro. A confusão é geral. O pandemônio gerado pelo tiroteio atrapalha o movimento de Ogum em direção a seus alvos.
-Meu Deus, ele matou quatro homens sem hesitar!
-Infelizmente para eles, foi nossa sorte, pois nos deu tempo de fugir. Não pare, agora.

Nos corredores internos, Filipe corre, puxando Geovana pelo braço. Diante de um alarme de incêndio, Filipe o aciona.
- Por que fez isso?
- Para aumentar a confusão e para destravar todas as portas.
Passando pela sala VIP, Ogum se detém por segundos, diante das diversas portas por onde poderiam ter passado os dois que persegue. Surge no monitor de seu óculos a imagem da planta do prédio, e ele rapidamente analisa as prováveis rotas de fuga. Em poucos segundos, ele toma uma decisão e segue por uma das portas.
Geovana e Filipa passam pela cozinha e pela despensa e alcançam a porta dos fundos. Passando por ela, eles alcançam o carro e entram.
-Liga, porra, liga!
Mal liga o carro, ele acelera-o. Antes de chegar a esquina, Filipe vê pelo retrovisor que Ogum acabara de sair do nightclub e se coloca no meio do beco, apontando a arma para a traseira do carro em movimento.
-Abaixe-se, Geovana! - grita Filipe, forçando a cabeça da jovem para baixo e se abaixando também.
Ogum dispara dois tiros, que atravessam o material translúcido que compõem o pára-brisa traseiro e dianteiro do veículo, os projéteis passando por onde estavam a poucos instantes as cabeças de Geovana e Filipe. Mesmo abaixado, Filipe consegue virar a esquina, saindo da linha de tiro.
- MeuDeusmeuDeusmeuDeus....
- Calma, acabou. Vamos sair daqui rápido, pegar os documentos e fugir da cidade.
Ela está chorando, desesperada. Filipe tenta consolá-la.
- Escapamos dele, está bem?
- Nós poderíamos ter morrido...ele é um assassino, muito pior que o Romano, pior que Fernando...

As coisas pioraram para Geovana. O fato saiu nos noticiários on-line e sua história se tornou pública. Seu marido queria o divórcio, e queria deixá-la na miséria. A opinião pública dos habitantes dos Megacondomínios acabaram convertendo Geovana em uma vilã inescrupulosa. Ao saber que ela estava encontrando Filipe, o marido foi tomado por um acesso de fúria, espancando-a.
-Separe-se dele. Viva comigo.
-Preciso sair disso com um pouco de dignidade...
Dias depois, ele recebe uma chamada de Geovana. Ela está em pânico.
- Meu Deus, Filipe, ele tentou me matar...
- Calma, querida, saia de casa e vamos registrar queixa.
- Eu...eu o matei.
- O que!? Como...
- Ele bebeu demais e estava discutindo. Começou a me bater, e de repente ele apareceu com uma pistola e encostou em minha cabeça. Implorei, mas ele disse que me mataria de qualquer jeito! Aí acabei me agarrando com ele e a arma disparou...
- Olha, não fale mais nada. Saia daí e vá para um hotel na rua das Timbiras, perto da Avenida São João. Alugue um quarto. Eu encontro você em uma hora. Não fale com ninguém.
- Oh, meu Deus...
- Calma, linda. Tudo dará certo. Eu prometo.

V
-Você matou os meus seguranças e causou um pandemônio em meu estabelecimento. Eu sei meus direitos, conheço as leis deste país Deveriam prendê-lo!
Os funcionários tentam limpar a bagunça. Os corpos dos seguranças mortos são recolhidos. Walace parece furioso, e Ogum se aproxima dele.
-Com todo o respeito, Walace, você não saberia o que é lei nem que enviassem o código civil e penal no seu rabo gringo. Você dirige todo tipo de negócio ilegal neste muquifo. Seus seguranças atrapalharam uma prisão em andamento. E eu nào gosto que se metam em meu caminho.
- Vou processá-lo...
Ogum saca uma de suas pistolas e aponta para a cabeça branca de Walace. Os outros seguranças sacam suas armas.
- Entre na fila. Agora me diga o que você forneceu a Filipe. Dinheiro, documentos, armas?
- Não traio a confiança de meus clientes.
- Prefere lidar comigo ou com a polícia? Sei que comprou metade da polícia metropolitana, mas a Federal e a Abin vai adorar saber sobre seu estoque de armas militares escondido no Bráss.
- Vá se foder!
Ogum desarma a pistola, produzindo um zumbido eletrônico característico, que Walace conhece muito bem.
- Tudo que ele levou foi dinheiro não rastreável. Nada de armas, documentos falsos, nem drogas.
- Você aprendeu português bem rápido. Walace. E mande seus seguranças se acalmarem, senão sua rotatividade de pessoal vai dobrar.
- Senhores, calma. Deixem-no ir.
Ogum não perde mais tempo naquele lugar. A pouca informação que conseguiu é suficiente. Ele sabe aqueles a quem caça precisa de documentos, e Filipe conhece os locais onde conseguir. E Ogum também conhece.

Filipe começa a lembrar o que ocorrera a poucas horas. A caminho do hotel, ele acompanhara as notícias. A imprensa estava acusando Geovana de planejar o homicídio de seu marido. Inicialmente ele pensara em conseguir um bom advogado para ela alegando legítima defesa, mas estavam crucificando-a . Logo após o crime, fora expedido um mandado de prisão e publicamente delegado, o que significa que qualquer agente poderia tentar pegá-la. E sabia que, por crime de homicídio qualificado, os agentes não costumavam pegar seus alvos vivos. A situação perdeu totalmente o controle quando ele viu o agente Moriel prestes a prender ou matar Geovana.
- Muito bem, bonitão, consegui uma identificação decente para sua musa aí.
Mina desperta Filipe de seus pensamentos. Ela entrega os cartões a Filipe.
- Veronica Mendes. Nome bonito.
- O cabelo, nem tanto. Ela precisa cortá-los bem curto e pintá-los de ruivo. Achei uma idéia útil ela mudar o visual. Se quiser, ela pode usar meu banheiro. Tenho tinta e máquina. Fiquem a vontade. Preciso sair.
- Você vai sair? Deixar isso aqui sozinho?
- O que vocês podem fazer? Roubar meus computadores? Acho que não .Vou visitar uns amigos. Não se preocupe, pois duvido que mais alguém me procure hoje. Normalmente meus clientes marcam hora e solicitam seus pedidos à longa distância. É mais seguro. Só você é quem gosta de fazer as coisas à moda antiga.
- Aqui está seu dinheiro. E mais um pouco.
- Ei, deixa disso. Apenas cobrei porque precisava pagar pela nova identidade.
- Pegue assim mesmo. Eu sempre estive lhe devendo, e não é isso que vai quitar minha dívida contigo.
Mina guarda os chipcash que Filipe lhe dera e veste sua jaqueta.
- Coroa, tu tem certeza do que você tá fazendo? Quer dizer, ela...você está correndo um sério risco por causa dela. Está jogando tudo pro alto.
- Eu gosto dela.
- Vale a pena? Quer dizer, não é da minha conta...
- Tudo bem. Talvez eu estivesse implorando por algo que mudasse a minha vida, sei lá...mas deixa. Você não tem que ouvir isso, e não temos tempo. Vou levá-la para o banheiro.
Filipe sai do escritório e leva Geovana até o banheiro. Mina apanha uma pistola e a coloca no cós de sua saia. Filipe volta e Mina se dirige a porta em passos lentos. Antes de sair, ela ainda pergunta:
- Não o verei mais, não?
- Provavelmente não, mesmo que eu tenha sucesso.
- Não sei como dizer isso, mas...obrigado por tudo.
- Pelo quê? Nunca consegui tirar você desta sujeira.
- Acredite, eu consigo me virar muito bem com este meu pequeno empreendimento, em parte graças a sua ajuda.
- Esta vida vai acabar contigo, um dia.
- Como esta sua vida acabou contigo? Bem, temos que lidar com isso da melhor maneira possível.
- Bem, então...adeus. E obrigado.
Sem olhar para trás, Mina apenas responde.
- Adeus, pai.
A porta de metal desliza e fecha. Um sentimento de tristeza e melancolia se abatem sobre o velho detetive. Ele se pergunta o que conseguira nestas décadas lidando com a escória da sociedade. Uma sociedade que um dia ele ingenuamente jurou servir e que ironicamente o colocou paulatinamente à margem de uma nova ordem. E agora se vira contra ele. E o que ganhou em troca? Uma família fragmentada, quase nenhum amigo, poucas posses.
Mas ele não se permite pensar nestas coisas. A prioridade é se manter vivo. Ele sabe que Ogum pode estar a caminho. Possa ser que ele demore a encontrar este lugar, contudo Filipe Não se nutre de esperanças pouco substanciosas, pois sabe quão competente seu antigo parceiro pode ser em uma investigação.
No banheiro, Geovana corta seus cabelos bem curtos e os pinta de vermelho. A tinta que Mina deixara no banheiro age rapidamente sem deixar manchas ou cheiro. Filipe entra devagar no banheiro. Inicialmente ela o olha através do espelho. Ele se aproxima por trás. Ela se vira. Ambos estão com uma expressão triste estampada em seus rostos. Sem dizer palavra alguma, ele delicadamente afasta a toalha na qual ela está enrolada, expondo seu corpo nu. Sem palavra alguma, os dois se beijam. E choram. E fazem sexo como se soubessem que seria a última vez que estariam juntos.
Poucas horas depois, eles já estão vestidos e saem do “escritório” de Mina. Filipe consegue outro carro, abandonando o que usara até o momento.
- Agora faremos o seguinte: com esta sua nova identidade, conseguiremos sair da região metropolitana, e em seguida do Estado. Até que seja expedido um mandado federal, estaremos livres dos agentes autônomos. E com sorte estaremos fora do país antes disso. Com o dinheiro que conseguimos obter e mais umas economias que tenho, dá pra nos virarmos.
- E como sairemos da cidade?
- De carro chama muito a atenção. Vamos pegar o monotrilho que nos levará até Barueri, e de lá pegaremos um transporte aéreo para fora do Estado. Aí fica mais fácil.
- Mas você não tem identidade falsa...
- Oficialmente não estou sendo procurado. Verifiquei os registros do Departamento de Segurança, e ainda estou limpo.
- Mas Ogum o viu...
- Eu conheço aquele puto. Ele não vai relatar isso, pois é a pista mais quente que possui, e ele não vai querer que ninguém, polícia ou outro agente, nos pegue primeiro.
Ela põe sua mão sobre a mão de Filipe.
- Quero dizer-te uma coisa.
- Que foi?
- Pode parecer até ridículo ou irrelevante diante destas circunstâncias, mas queria que você soubesse que eu não o estou usando. Eu até gostava um pouco de meu marido, mas você foi o único que me tratou como gente, mesmo sabendo o que fiz, no passado.
O veículo passa por uma guarita. Filipe pára diante de um terminal automático e introduz as identificações. Em segundos, o sistema autoriza a entrada de ambos no ambiente restrito de Neocitie III. Filipe ainda se impressiona como se ergueram estas estruturas no espaço de poucos anos. Quando as primeiras famílias foram desalojadas para a construção do segundo Megacondomínio, poucas vozes se levantaram em defesa delas. O governo autoritário controlava o acesso as informações, e eram apenas divulgados os benefícios trazidos pelo empreendimento. E os maiores beneficiados estavam agradecidos pela chance de se isolar dos problemas da Megalópole, principalmente a crescente violência urbana, para a qual a polícia se tornara inútil.
- Sabia que aqui era um conjunto de apartamentos populares, a umas décadas atrás?
- Não consigo me lembrar de nada antes desta construção.
- Não é do seu tempo. Eu assisti ao nascimento disso.
- Dá pra pensar que sempre foi assim.
- No meu tempo já havia muita violência e exclusão social, mas não eram nada comparado com o que ocorre hoje.
- Você sente saudades desta época?
- Como todo velho rabugento que se preze...pelo menos ainda havia música decente naqueles tempos.
- As músicas que você escuta são bonitas.
- Se você não gostasse de mim, diria que tens um ótimo gosto.
Ela ri. Ele percebe que faz tempo que não a vira sorrir. Lentamente ele conduz o carro pelas ruas vazias, porém sempre vigiadas. Seu destino: a estação do sistema de monotrilho.
Após deixarem o veículo no estacionamento e se identificarem no atendimento automático, eles acessam a plataforma. Em poucos minutos, o trem deve parar na plataforma. Devido a hora, apenas eles estão na plataforma. Um zumbido de alta freqüência se vaz ouvir ao longe. É o trem que se aproxima. Eles se entreolham e se permitem ter esperanças de sucesso, sorrindo nervosos. Ambos olham na direção de onde deve vir o trem.
E encontram, a alguns metros em pé, a figura de Ogum. O sorriso some como que por encanto de seus rostos. Ogum permanece imóvel, seu rosto inexpressivo.
Por longos segundos, nenhuma ação é tomada. Filipe sabe que, se tentar saca a arma, seria alvejado em segundos. Ogum também está imóvel, suas armas ainda guardadas em seus coldres. Lágrimas escorrem pelo rosto de Geovana. Finalmente, Ogum rompe o silencio.
- Bem que imaginei que acabaria assim, Filipe. Você é um velho sentimental que se deixou envolver.
- E você é um filho da puta arrogante- devolve o velho agente.
- Você não deveria estar aqui, Filipe. Não me interessa você. Portanto, última chance: cai fora e eu a levo numa boa, sem mortos ou feridos.
Silêncio.
- Esta puta velha o enganou. O tempo todo ela queria que você matasse Romano, e depois ela queria que você matasse o marido dela, para ela ficar com tudo sozinha. Não acha que você é o próximo? Assim que vocês estivessem a salvo, Felipe estava perturbado, confuso.
Filipe se coloca à frente de Geovana.
- Acredite, não quero matá-lo, mas farei isso, se necessário.
Enquanto ela está fora do campo de visão de Ogum, Geovana retira a oistola que usara para matar seu marido de dentro da mochila. Empurrando Filipe para o lado, ela ergue a arma e a aponta para Ogum.
Ogum age rápido, sacando uma de suas pistolas e disparando uma rajada curta, que atinge Geovana. Ela é lançada para trás e cai. Ao seu lado, o atônito Filipe vê Geovana cair no piso da plataforma, enchendo-o de sangue. Tomado por uma fúria incontrolável, ele saca sua velha Colt e aponta para Ogum, atirando freneticamente.
- Morra, miserável!
Ogum dispara novamente, atingindo Filipe. Ele cai, lançando seus pés para cima. Ele não sente dor com o ferimento apenas uma leve tontura. Caído, quase perdendo os sentidos, ele vê Geovana a poucos metros, ainda consciente. Ele estica seu braço para tocar a mão dela. Os dois estão de mãos dadas, chorando, quando Ogum se aproxima.
Tudo se torna escuro. Filipe escuta dois tiros, sendo o último deles o que lhe tira a vida.


“Relatório de diligência publicamente delegada 9876/2054.
A suspeita foi encontrada na plataforma 12 da estação de monotrilho de Neocitie III. Estava acompanhada de Filipe Scott, que aparentemente a estava ajudando. Ambos resistiram a voz de prisão, sendo necessário o emprego de força letal. Os dois estavam armados, ela com uma pistola Taurus Minuteman calibre .2222 Express e ele com uma velha pistola Colt Mark 80 calibre .45 ACP. Ambos morreram no local em decorrência dos ferimentos. Foi encontrada uma identidade falsa com a suspeita, além da arma e alguns percences. O oficial da polícia metropolitana Paulo Vieira esteve presente no local para ateste da situação. Diante dos fatos, encerra-se o presente relatório, sendo encaminhado o mesmo para devido reembolso do bonus devido.
São Paulo, 02 de outubro de 2053, 02:57”



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