O Busilis Blog

Este é o blog do Site www.obusilis.com. O Dia-a-Dia do Brasil e do Mundo no nosso diário de uma forma que ninguém ousa publicar. O mundo do ponto de vista Busilis.

sábado, junho 17, 2006

 

Funeral Fun

A esta altura todo mundo já sabe que o Bussunda foi fazer graça em outras plagas. Foi a primeira notícia que vi, após acordar da farra de ontem. Notícia ruim, diga-se de passagem. Mesmo não considerando que o Casseta e Planeta andem em uma boa fase, o grupo deve ser lembrado como um dos ícones do humor nacional, que mudou o estilo de humor impresso e televisivo nos anos 80 e 90, e Bussunda teve uma grande participação nisso.

Este fato me lembra também a morte precoce de um componente de um grupo de humor: Grahan Chapman, do grupo Monty Python, que veio a falecer de cancer aos 48 anos em 1989. Os seus colegas de chacota não compareceram ao funeral, mas em uma cerimonia realizada semanas depois, um de seus colegas, John Cleese, teria feito um discurso bem humorado em homenagem ao colega. A versão original pode ser lida aqui. E eu colo aqui a sua tradução, devidamente roubada e creditada ao Almirante Nelson.

Graham Chapman, co-autor do “Parrot Sketch“, já era.

Não existe mais, nos deixou, descansa em paz, bateu a caçuleta, esticou as canelas, apagou, deu o último suspiro: foi encontrar o Grande Empresário dos Espetáculos lá no céu. Imagino que todo mundo aqui esteja lamentando que um cara tão talentoso, amável e inteligente possa sumir assim, de repente, com meros quarenta e oito anos – antes de conquistar tudo que era capaz, antes de ter toda a diversão que merecia.

Mas algo me diz que o que eu deveria falar é “Que nada: já vai tarde, babaca. Tomara que queime no inferno”.

Sim, ele nunca me perdoaria se eu não fizesse isso – se eu desperdiçasse a chance de chocar todo mundo, em seu nome. Valeria qualquer coisa, menos o tal bom gosto politicamente corretinho. Aliás, juro que pude ouvi-lo sussurrar em meu ouvido, ontem à noite, enquanto eu escrevia este discurso:

“OK, Cleese, você até hoje se orgulha de ter sido o primeiro a dizer ‘merda’ na televisão. Pois se esta homenagem é realmente para mim, quero que você seja também a primeira pessoa num discurso fúnebre britânico a dizer ‘foda-se’ .”

O problema é o seguinte: não posso. Se ele estivesse aqui comigo talvez eu tivesse coragem – porque ele sempre me incentivou. Mas a verdade é que eu não tenho os colhões que ele teria, nem aquele grandioso espírito de rebeldia. Então, ao invés disso, eu vou ter que me contentar em dizer “Betty Marsden“.

Mas logo depois de mim subirá aqui gente bem mais arrojada e desinibida. Jones e Idle, Gilliam e Palin. Só Deus sabe o que acontecerá nas próximas horas, em memória de Graham Chapman. Calças caindo. Blasfemadores no pula-pula. Exposições espetaculares de peido em alta velocidade. Incesto sincronizado. Um dos quatro planeja inclusive enfiar uma jaguatirica morta e uma Remington 1922 no próprio rabo ao som do segundo movimento do concerto para cello de Elgar. E isso é só a primeira metade.

Porque é isso: Graham iria querer tudo desse jeito. Exatamente desse jeito. Vale tudo, menos o tal bom gosto politicamente corretinho. É isso o que vou lembrar dele, sempre. Além, claro, de sua extravagância olímpica. Ele era o rei do mau gosto. Adorava chocar. De fato, Graham – mais que qualquer outra pessoa – incorporou e representou tudo o que existiu de mais ofensivo e jovial no Monty Python. E em nome de seu prazer de chocar ele fez grandes proezas. Gosto de pensar nele como o farol que clareou o caminho a ser percorrido depois por espíritos mais fracos.

Algumas lembranças. Me lembro de estar escrevendo o discurso do papa-defunto com ele, e ele sugerindo o punch line: “Ok, vamos comê-la, mas se você sentir-se culpado depois, cavamos uma sepultura e você vomita dentro dela.” Lembro também de 1969, quando escrevíamos todos os dias no apartamento onde Connie Booth e eu morávamos, e ele tinha recém-descoberto a brincadeira de anotar palavrões em quadradinhos de papel. Então, sorrateiramente, colocava cada um deles em pontos estratégicos do apartamento, levando Connie e eu a caçadas frenéticas pelos tais papeizinhos sempre que estávamos para receber visitas importantes.

Me lembro dele nas festas da BBC, andando de quatro, se esfregando carinhosamente nas pernas de executivos graúdos e delicadamente mordiscando as panturrilhas femininas mais apetitosas. A sra. Eric Morecambe se lembra disso, também.

Me lembro dele sendo convidado para falar em Oxford, entrando no recinto vestido de cenoura – uma fantasia em formato de cone, alaranjada, enorme, com um grande e brilhante ramo verde fazendo as vezes de chapéu – e, ao chegar sua vez de discursar, ele se recusando a falar. Apenas ficou lá, literalmente mudo, por vinte minutos, com um sorrisinho bem beatífico. A única vez na história do mundo em que um homem totalmente silencioso conseguiu incitar uma algazarra.

Me lembro de Graham recebendo um prêmio televisivo do jornal The Sun, das mãos de Reggie Maudling. Quem mais?!? Ele recebeu o troféu, caiu no chão e foi se arrastando de volta até sua mesa, gritando o mais alto que podia. E quem se lembra de Graham sabe o quanto ele podia ser barulhento.

Não é magnífico? Sabe, o mais legal nisso de gostar de chocar… Não é que incomode algumas pessoas, eu acho. Imagino que seja porque proporciona ao público um júbilo momentâneo, uma ligeira fuga, como se a gente descobrisse naquele instante que as regrinhas que estrangulam tão terrivelmente nossa vida na verdade nem importam tanto assim.

Bem, Graham não pode mais fazer isso pela gente. Ele se foi. É um ex-Chapman. Tudo o que temos dele, agora, são nossas lembranças.

Mas elas vão demorar um bocado para evaporar.




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